Blog do Rodrigo Mattos

Olimpíada deixa Rio mais feliz, mas não vai transformá-lo
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Foi a melhor Olimpíada, foi a pior Olimpíada, foi o tempo da euforia, foi o tempo dos lamentos, foi a época do orgulho, foi a época do vexame, foi o período da compreensão, foi o período das críticas, foi o momento da solidariedade, foi o momento da arrogância, nós tínhamos tudo a nossa frente, nós não tínhamos nada a nossa frente.

A percepção brasileira sobre os Jogos Rio-2016 é marcada por extremos. O que de início era ataque pesado, depois virou exaltação, o que era receio de um desastre, depois virou entusiasmo cego, o que antes era complexo de vira-lata, depois virou nacionalismo exacerbado.

Mas os exageros, em geral, turvam a análise do que representou de fato a Olimpíada para a cidade e para o Brasil. Qualquer crítica pertinente será vista como mau humor após o país conquistar duas medalhas de ouro nos seus dois principais esportes coletivos. Assim como qualquer elogio preciso seria ignorado quando havia uma Vila Olímpica inacabada e australianos aos gritos.

Analisada de uma melancólica manhã de segunda-feira, a Rio-2016 foi um fator de recuperação da auto-estima da cidade e em menor escala do Brasil, mas ao mesmo tempo não os transformou em um lugar melhor. Fomos felizes por duas semanas apesar dos percalços. O sonho de apresentar um país diferente ao mundo, que existia na candidatura de 2009, ficou pelo caminho.

Não há dúvida da beleza da festa de abertura que mostrou um face brasileira de gente feliz, elegante e sincera. Nem há questão de que o país se torna melhor quando tem uma herói simbólica como Rafaela Silva, saída ali da Cidade de Deus, pertinho do Parque Olímpico. E há, sim, uma sensação de realização do carioca e brasileiro ao concluir um projeto de sete anos e receber os estrangeiros para os Jogos.

A realidade, no entanto, é que o Rio não foi capaz de demonstrar a mesma competência que cidades desenvolvidas como Pequim, Londres e Sydney na organização do evento. Houve falhas, sim, contundentes desde o vexame da Vila Olímpica até uma operação desastrada nos serviços ao público. Ou seja, o Brasil não mudou a sua face do jeitinho.

Em relação ao Rio, vale a mesma leitura. O prefeito Eduardo Paes conseguiu, com os Jogos, criar um sistema de transportes que demonstra eficiência nestes primeiros dias de operação. Isso é um ganho para a população carioca. E mudou o visual do centro da cidade com a revitalização do porto.

Só que a transformação como em Barcelona, promessa de campanha, não se concretizou. O Rio é hoje em termos de segurança pior do que era em 2009, e esse é o problema que mais aflige o carioca. E as águas da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas continuarão a ser quase tão sujas quanto antes. Sem esquecer que as obras olímpicas foram realizadas com o mesmo modus operandi nocivo que é hábito no país.

Ninguém vai esquecer de Usain Bolt na pista do Engenhão, de Micheal Phelps na piscina, do primeiro ouro olímpico da seleção explodindo o Maracanã, da festa familiar do vôlei, do salto improvável de Thiago Braz, das piadas, dos vilões, dos casos polêmicos. Foi uma festa para contar para os netos. Agora, é hora de encarar a ressaca e pensar sobre as oportunidades perdidas neste Jogos. Enfim, é segunda-feira.

PS O primeiro parágrafo deste texto é inspirado na introdução do livro “Um conto de duas Cidades'' de Charles Dickens que trata da época das transformações provocadas pela Revolução Francesa, e do cenário de Londres na mesma época.

 

 


Com ouro, seleção se reconcilia com futebol e com Maracanã
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Não foi uma revanche contra a Alemanha, nem vingamos o 7×1. Mas toda recuperação deve ter um primeiro passo, um início de caminho. E a seleção brasileira indicou ter começado sua caminhada de volta ao conquistar o ouro olímpico. Reconciliou-se com o futebol e com o Maracanã.

Não, a crise do futebol nacional não se esvaiu de repente. Mas há notícias positivas. Neymar assumiu o protagonismo que lhe cabe, seja na bola, seja com a torcida. O time adotou táticas modernas como a defesa avançada, o goleiro como líbero e uma linha de ataque de quatro à frente.

Essa ofensividade talvez seja o fator mais promissor do novo time de Rogério Micale. Sim, isso implica em se expôr e permitir três bolas na trave alemães no primeiro tempo. O time germânico, diga-se, era mais organizado, mais pronto do que o brasileiro. Não à toa: joga junto e igual desde categorias menores. E é um time experiente em seleção de base e em números de jogos da Bundesliga.

Por isso, o jogo foi equilibrado a maior parte do tempo. Porque o Brasil era a equipe mais talentosa em campo, rechaçando aqueles que dizem que não é uma geração frutífera. Neymar gastava a bola, seja armando, seja arrematando com perfeição. Renato Augusto era dono do meio de campo. Quase todos iam bem, exceção dos dois Gabriéis, sem achar espaço e errando nos lances finais.

Ao gol de Neymar, a Alemanha respondeu com bela jogada coletiva após falha na saída de bola do Brasil. O placar refletia o jogo. E o Brasil não se intimidou: saiu para o jogo. Faltou a conclusão correta às inúmeras jogadas criadas por Neymar para seus companheiros.

Cansados ambos os times, o jogo foi para os pênaltis. Ali, fez sentido a escolha de Rogério Micale por um goleiro que, além de saber sair do gol, pegasse pênaltis. E Weverton cumpriu seu papel pegando a quinta cobrança de Nils Petersen. Coube a Neymar fazer o Maracanã explodir como há um tempo não se via.

Ressalte-se que a torcida foi um espetáculo à parte. Esteve sempre com o time, vaiou os alemães, esteve junto a cada ataque. Até o zicado “Eu acredito'', que um grupo puxou, foi abafado. Dizem que o Sudeste é hostil à seleção, e por isso Ricardo Teixeira e seus amiguinhos mantiveram a seleção longe do Maracanã na Copa-2014. Pois o estádio provou que é a casa da seleção. Quem sabe de uma nova seleção.


Lochte aproveitou-se do preconceito contra o Rio para mentir
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Sejamos sinceros,  o Rio de Janeiro atravessa um momento bastante difícil em relação à violência urbana. Diante disso, não seria chocante que um atleta olímpico fosse assaltado na cidade e tivesse a vida posta em risco. Foi exatamente por isso que o nadador norte-americano Ryan Lochte e seus colegas aproveitaram para inventar uma história e encobrir a fanfarra que fizeram na noite carioca.

Primeiro, Lochte deu uma entrevista dizendo que botaram a arma para sua testa e levaram seu dinheiro. Depois, disse que lhe apontaram o revólver, mas não diretamente na testa. Está claro que ele, o mais experiente, deu as cartas no tom da história de todos os nadadores.

Feitas essas declarações, todos nós jornalistas acreditamos nele. Afinal, era um campeão olímpico dizendo que fora assaltado. Por que mentiria?

Alguns poucos veículos norte-americanos aproveitaram para achincalhar o Rio de Janeiro quando surgiram dúvidas sobre o caso – a maioria agiu de forma responsável, diga-se. Em um texto lamentável, a colunista Nancy Amour, do USA Today, disse que o nadador acertou ao sair do Brasil e que a polícia brasileira não era confiável. Outros jornais falaram em cidade com praga de violência – o que é verdade – para ilustrar artigos dando razão aos nadadores.

Ao “New York Times'', o advogado de Lochte, Jeff Ostrow, relacionou o caso a uma “nuvem negra'' sobre o Brasil, por razões como economia mal, crime e erros na gestão da Olimpíada. Como se falhar na organização dos Jogos e estar sem dinheiro dessem a certeza de que a versão de seu cliente era verdadeira.

Tudo começou a cair por terra com o vídeo que mostra Lochte em típica atitude de playboy bêbado que faz arruaça porque não sabe se controlar. Aquele que apontou uma arma contra ele, na verdade, era um segurança tentando contê-lo após as estripulias.

Confrontados, os nadadores, menos Lochte, admitiram à polícia que não houve assalto, e sim o vandalismo seguido de cobrança armada por reparação. Fica claro que não contavam que o caso sequer fosse investigado, tanto que não tinham prestado queixa. Entendiam que em uma cidade tomada por violência um assalto nem seria investigado. Apostaram no preconceito contra o Rio e o Brasil.

Em atitude correta, o Comitê Olímpico dos EUA reconheceu o erro deles e pediu desculpas pela atitude de seus atletas. Ressalte-se que o comitê não teve culpa no episódio: alertara para que seus atletas respeitassem o país, e acreditou em Lochte porque era seu atleta.

Dito isso, é correto que os nadadores sejam liberados. Não cometeram crime grave: a falsa denúncia é no máximo punível com cestas básicas do Brasil. E assim deve ser. Não há porque prende-los no país após a situação esclarecida.

O que fica de lição é que não se deve tirar conclusões baseadas em preconceitos. Sim, a polícia brasileira tem vários problemas, mas agiu corretamente no caso. Sim, o Rio é violento, mas quem criou confusão naquela noite foram os nadadores norte-americanos. Sim, Lochte tem seis medalhas de ouro, mas isso não significa que tenha caráter.

Como se diz no Rio: “Perdeu playboy, é hora de se desculpar''.

PS: Lochte pediu desculpas ao Brasil em uma comunicado nesta sexta-feira. Não admitiu a mentira: apenas falou que deveria ter tido mais cuidado ao descrever os fatos. E continua a posar de vítima por ter uma arma apontada para si. O comunicado mais parece escrito por um relações públicas para agradar patrocinadores, nada a ver com demonstração de arrependimento.


Homenagem a Havelange na Olimpíada é como se Brasil honrasse Eduardo Cunha
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A homenagem que o Comitê Rio-2016 faz ao ex-presidente da Fifa João Havelange com bandeira brasileira a meio pau por sua morte nesta terça-feira envergonha o movimento olímpico e os seus supostos altos valores. Seu legado como dirigente é de politicagem com o futebol e apropriação de recursos do esporte por cartolas. Seria algo parecido com se o governo brasileiro, agora, decidisse dar uma honraria ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, envolvido em escândalos sem fim.

Para chegar a esta constatação, basta se analisar os fatos. Havelange ganhou a presidência Fifa em 1974 alçado ao cargo por promessas de benesses a eleitores e por um apoio do então presidente da Adidas Horst Dassler, principal patrocinadora da entidade. Ao assumir, montou uma máquina poderosa de fazer dinheiro que beneficiou principalmente cartolas e a própria corporação.

Na década de 1990, quando o dinheiro realmente entrou forte no futebol, montou-se um esquema corrupto com a ISL, gigante de marketing esportivo. A empresa comprava todos os direitos da Copa, lucrava milhões e repassava parte para os cartolas. A falência trouxe à tona os segredos.

Um processo judicial na Suíça comprovou que Havelange levou 1,5 milhão de francos suíços no esquema, fora os tantos outros milhões recebidos pelo seu então genro Ricardo Teixeira. O ex-presidente da Fifa teve até de se retirar do COI (Comitê Olímpico Internacional) para não ser expulso. O COI não quis cumprir honras com bandeira olímpica a meio pau.

E essa prática de subornos disseminou-se por todo mundo do futebol como se comprovou no caso Fifa revelado pelo Departamento de Justiça dos EUA já em 2015. Isso está tão entranhado no mundo do futebol que Joseph Blatter considerava normal levar US$ 12 milhões de bônus em uma Copa, Marco Polo Del Nero nem se abala de dirigir a CBF mesmo acusado de corrupção nos EUA.

Não é só. Havelange fez sua carreira usando a gestão da Fifa para interesses políticos. Expandiu a Copa para conseguir mais votos (sem analisar o aspecto técnico), entregou um Mundial para uma ditadura sanguinária como a argentina e sempre deixou os interesses de jogadores e atletas no último lugar. A falência do futebol brasileiro é um legado deixado por suas práticas.

Dito isso, a homenagem ao cartola ocorre em um momento em que o Brasil tenta combater a corrupção e mudar como país. É ofensivo que um cartola reconhecidamente corrupto seja honrado nos Jogos do Rio-2016, evento simbólico para o país. A mensagem que o Comitê Rio-2016 passa para o povo brasileiro é: pode tomar o dinheiro dos outros que um dia você acabará homenageado nos Jogos Olímpicos.


Como no futebol, torcida olímpica fica sem metrô por ‘horário da TV’
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O público que vai às competições da primeira semana de Olimpíada sofre um mesmo problema do torcedor de futebol em algumas cidades como São Paulo: fica sem metrô como transporte para casa por causa do horário imposto pela TV. Em ambos os casos o transporte fecha antes de o espectador conseguir acessá-lo por ser muito tarde.

Nos Jogos, isso ocorre com quem vai às finas da natação no Parque Olímpico. Todas as provas decisivas foram marcadas para noite para atender o horário nobre da NBC, rede norte-americana que paga US$ 1,4 bilhões pelos direitos da Olimpíada.

Quando sai da instalação, o torcedor tem que pegar um BRT (corredor de ônibus) até a estação de metrô Jardim Oceânico, no início da Barra da Tijuca. Só que a estação fecha à uma hora da manhã, então, é comum boa parte dos torcedores ficarem sem poder utilizar o trem. A alegação é de ser necessário tempo para manutenção.

Em resumo, o torcedor tem que continuar no BRT até a zona sul. Há relatos de pessoas que ficaram na mão e simplesmente tiveram que pegar táxi. Pior é para o torcedor que vai para a zona norte e tem que pegar outro meio de transporte. Isso já estava previsto no sistema de transporte da prefeitura do Rio.

“(Transporte) É uma responsabilidade da cidade que tem providenciado o metrô. Não tem nada a ver com o tempo da competição. É um novo sistema, e o metrô da Barra é um legado'', afirmou o diretor de comunicação do Rio-2016, Mario Andrada. Ele ressalta que, se a Olimpíada não atender os horários da NBC ,não terá o dinheiro dos direitos.

Esse problema ainda se estende ao Maracanãzinho onde jogos de vôlei são tarde da noite e acabam de madrugada. O mesmo deve ocorrer com o atletismo com finais quase meia-noite, tudo para atender a NBC e seu prime time.

É exatamente a mesma situação do futebol nas quartas-feiras à noite no Brasileiro. Detentora dos direitos de transmissão, a Globo exige que os jogos sejam marcados para 21h45 para ocorrerem após as suas novelas.

Com isso, torcedores do Corinthians, por exemplo, já tiveram que sair mais cedo de jogos do time para chegar a tempo para o metrô que fechava logo depois do final da partida. Há questionamentos ao governo do Estado para que o metrô funcione até mais tarde.

Mas isso implica em maior custo para a população em geral, tanto no caso do Rio de Janeiro quanto de São Paulo. A solução mais prática para atender os interesses dos torcedores seria realizar as competições mais cedo, mas, como donas das competições, as televisões não aceitam modificações.


Brasileiro torce errado ou atletas reclamam à toa?
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“Podemos dizer que os brasileiros são democráticos: eles vaiam todo mundo'', disse o diretor de comunicação do COI, Mark Adams, recentemente, questionando sobre o comportamento dos brasileiros nas arenas olímpicas. Sua resposta mostra como a torcida se tornou uma questão nestes Jogos Olímpicos.

Empolgados, os brasileiros apoiam e apupam mais os adversários do que outros anfitriões em versões anteriores da Olimpíada, levando para outros esportes o que fazem em estádios de futebol. Há atletas que gostam, há aqueles que reclamam. Está a torcida nacional é equivocada em sua atitude?

Não há uma resposta única para essa questão. Primeiro, em geral, o envolvimento dos brasileiros nas competições é positivo, inclusive para esportes antes desconhecidos como o tiro esportivo. Foi atrás de festa que o COI nomeou o Rio sede dos Jogos.

Então, por exemplo, parece mimimi da parte dos espanhóis reclamar que Paul Gasol foi ofendido por torcedores brasileiros. O basquete, em essência, tem torcidas similares às do futebol, basta ver como na NBA os torcedores rivais pressionam os visitantes.

O mesmo ocorre na natação, onde a arena se tornou um caldeirão e animou até o mito Micheal Phelps. E mesmo a vaia para a nadadora russa Yulyia Efimova faz parte do jogo. Foi pega em doping recentemente, está sob suspeita, não pode reclamar de ser apupada.

Agora, sim, há esportes em que a manifestação da torcida – não só brasileira – tem prejudicado os atletas. Por exemplo, na ginástica, os brasileiros vaiam quando consideram uma nota baixa para um atleta nacional. Só que, no momento em que a nota é anunciado, pode haver uma outra ginasta na trave, um aparelho que exige enorme concentração. Ela pode ser prejudicada.

Isso vale para esportes como tiro esportivo, esgrima, certos momentos do tênis. Não há como fugir: o barulho, nestes casos, atrapalha o atleta de realizar sua melhor performance. O público pode vibrar, mas na hora certa.

O Rio-2016 diz que, aos poucos, quer educar o público brasileiro a curtir esses esportes. Bem difícil que isso ocorra para essa Olimpíada. Ainda mais se lembrarmos que mesmo atletas olímpicos não têm essa cultura de outros esportes no país. Me lembro no Pan-2007 de ouvir o ex-jogador de basquete Oscar gritando quando uma ginasta chilena subiu na trave: “Vai cair Chile''.

Enfim, neste caso, do copo meio cheio e meio vazio, resta ao COI aproveitar o lado bom que é a empolgação do brasileiro na torcida e tentar, com orientadores e bom senso, mostrar quando o barulho é inconveniente.


Repressão a protestos em sedes olímpicas é mais severa do que na Copa
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A Fifa e o COI (Comitê Olímpico Internacional) têm regras bem parecidas quando se trata de protestos políticos: não são tolerados em suas competições, seja na arquibancada, seja no campo. Mas a repressão a manifestações dentro das sedes tem sido muito mais severa nos Jogos do que na Copa. E isso ocorre justamente quando o país está dividido politicamente na disputa pela presidência entre Michel Temer e  Dilma Rousseff.

Primeiro, ressalte-se que a proibição a cartazes é legal. Foi determinada em maio de 2016 pela lei olímpica, que prevê que torcedores não podem usar bandeiras que não seja para fins amigáveis. Não trata de gritos de ordem, por exemplo, e ressalva o direito de livre manifestação. São as regras olímpicas que proíbem qualquer protesto político, o que inclui os gritos. A Justiça já considerou essa regra legal.

O cenário era similar com a Fifa, que também orientou que não deveria haver protestos, e colocou essa instrução em ingressos. Mas nem sempre isso foi seguido à risca.

Dou aqui um exemplo que ocorreu no Maracanã. Uma faixa grande foi exibida como protesto contra a própria Copa-2014 em jogo do Mundial. Houve repressão e pedido para que a faixa fosse abaixada, mas ela não foi recolhida e ninguém foi expulso da arena. No final, os manifestantes continuaram a mostrar a faixa e ninguém fez nada.

Outros cartazes, naquela época, também foram retirados dos manifestantes. Em geral, o policial ou voluntário chegava, pedia para abaixar ou retirava e ia embora. Mas houve quem exibisse tranquilamente camisas contra a Copa ou até a Fifa sem ser incomodado.

No caso olímpico, cartazes de tamanho pequeno com “Fora Temer'' têm sido alvo dos policiais. No Sambódromo, um torcedor foi retirado com truculência pela Força Nacional. Na Arena Olímpica, na competição de ginástica, torcedores também acusaram os policias de serem duros na repressão e de ameaçarem retirá-los. Eles não foram expulsos, e os policiais alegam terem sido educados.

Uma torcedora me relatou que um voluntário a perseguiu até o banheiro porque tinha exibido uma faixa “Fora Temer''.  E fez ameaças de que seu amigo tinha sido preso.

A regra do COI não é nova e já causou polêmicas, como a punição dos velocistas no México-1968, que perderam suas medalhas por um protesto no estilo “Panteras Negras''. O processo é discutível por sua interferência no direito democrático da liberdade de expressão. Do lado do COI, é um jeito de se proteger para não envolver os Jogos em discussões que não são suas, como se a entidade fosse isolada do mundo (claro que não é).

Claro que grandes manifestações poderiam interferir nas competições, mas não me parece que pequenos cartazes estejam causando distúrbio nos ambientes. Que se peça para retirá-los, vá la. Mas não dá para achar normal uma atitude intimidadora da Força Nacional ou ameaças de expulsão.

Isso gera, inclusive, uma desconfiança sobre quem dá orientações aos policiais para agir assim, visto que a Força Nacional é vinculada ao Ministério da Justiça, comandado por Alexandre Moraes, aliado de Temer e responsável por comandar a repressora polícia paulista. Que os policiais possam ter mais bom senso na aplicação da lei, porque não estão lidando com criminosos, apenas com pessoas que discordam do governo atual.

 


Corinthians burla regra do COI e tem que tirar vídeo de jogo do twitter
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A Arena Corinthians utilizou indevidamente vídeo de jogo da Olimpíada do Rio-2016 em sua página no twitter, já que não é detentor de direitos de transmissão da competição. Por isso, o COI (Comitê Olímpico Internacional) pediu para o clube retirar os vídeos da internet, o que foi feito no dia seguinte.

A estreia do futebol feminino entre Canadá e Austrália ocorreu no estádio alvinegro na quarta-feira, no primeiro evento da competição. Saiu um gol de Beckie, do Canadá, logo aos 17 segundos. O twitter da arena disponibilizou o vídeo em uma imagem de longe. Outros dois vídeos do jogo foram colocados, segundo visto pelo blog.

Questionado sobre o assunto, o COI confirmou que o clube não poderia fazer isso: “Apenas detentores de direitos de televisão têm o direito de transmitir os Jogos Olímpicos. Esse assunto específico foi resolvido.''

Depois disso, os vídeos foram retirados da página da Arena Corinthians. O blog questionou a comunicação do estádio sobre o assunto, e eles não se pronunciaram.

 

 


O mito do australiano cricri não é verdadeiro
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Desde a abertura da Vila Olímpica, a Austrália tornou-se protagonista neste período pré-olímpico pelas suas críticas às instalações dos atletas. Virou até motivo de piada: outro dia ouvi algo do tipo: “Estou tão insatisfeito quando um australiano no Rio''. Mas os eles são, de fato, cricris, frescos?

A resposta teria de ser um sonoro não diante da experiência que tive com atletas e membros da delegação do país da Oceania, e após visita ao seu prédio na Vila. A delegação da Austrália apenas apontou problemas reais e lidaram com sinceridade com eles.

Mas, eles ainda enfrentam questões menores em suas instalações, como pôde ser visto pelo blog na segunda-feira, quatro dias após o Comitê Rio-2016 dizer que tudo estava resolvido. Há água quente em alguns banheiros, e em outros não, enquanto privadas e chuveiros entopem. E há claros sinais de acabamento mal feito no prédio, além de sujeira no chão e nas paredes.

O que você faria se chegasse em um hotel no exterior para trabalhar e houvesse essas condições? Ficaria lá em instalações ruins ou reclamaria e exigiria melhorias?

Ainda assim, a delegação da Austrália faz elogios aos pontos positivos da Vila: os australianos gostaram da piscina e decoraram o prédio para se sentirem em casa. Sua chefia de missão diz que é a mais bonita já vista e que há boa vontade dos organizadores para solucionar rapidamente a questão. Havia encanadores no prédio lidando com questões no momento da visita ao local. Entraram no bom humor do prefeito Eduardo Paes e trocaram cangurus e chaves da cidade com ele.

O contato que tive com os australianos, assim como em Olimpíadas anteriores, mostrou um povo em geral simpático, aberto e sincero. Bem mais positivo do que mídias de outros países, que exageram nos defeitos brasileiros em busca de sensacionalismo. Talvez essa clareza em lidar com os problemas, em vez de disfarça-los com discursos políticos, possa ser o maior aprendizado que podemos ter com eles, bem além de encanamentos.


Crise e mudança de projeto atrasaram sedes da Rio-2016, dizem federações
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UOL Esporte

A crise econômica no Brasil e mudança de última hora em projetos atrasaram instalações de sedes olímpicas, segundo presidentes de federações internacionais de esportes. Mais demorada das sedes, a Arena de Vôlei de Praia foi alterada radicalmente há sete ou oito meses. Apesar dessas observações, em reunião no Rio, as federações internacionais e o COI ressaltaram que agora a três dias da Olimpíada está tudo pronto para o evento.

A Arena de Vôlei de Praia vai ser entregue completamente à Federação Internacional de Vôlei nesta terça-feira após as últimas decorações. Demorou, no entanto, para ficar pronta por uma alteração no projeto original.

“Queriam fazer a sede na vertical diferente de tudo quanto foi feito até agora na praia. Aí viram que a ressaca ia afetar e queriam levar para Botafogo. Falei com o (Carlos Arthur) Nuzman para fazer na horizontal como sempre fizemos. Isso foi há uns sete ou oito meses'', disse o presidente da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), Ary Graça.

De fato, a arena foi feita em paralelo ao mar. Mas chegou a ter a obra embargada no meio e por isso foi a última sede a ficar pronta. O resultado final, no entanto, satisfez a Fivb. “É espetacular'', disse Graça. Não se sabe o valor da obra, bancada pelo comitê organizador.

A Arena de Vôlei e consertos na Marina da Glória são as última medidas que faltam para concluir as instalações a três dias dos Jogos. “Está tudo bem. Vamos construir uma rampa menor na Marina da Vela (destruída por uma ressaca). Ainda faltam os adereços do Vôlei'', afirmou o diretor-executivo do COI, Christophe Dubi.

Outra questão levantada pelas federações foi a falta de dinheiro para atender suas reivindicações. Isso já foi reconhecido pela própria prefeitura do Rio e pelo comitê organizador, que economizaram dinheiro com a crise econômica no país e para evitar ter recursos públicos.

“Houve desafios de logística e dificuldades'', afirmou o presidente da Federação Internacional de Judô, Markus Vizer. Questionado sobre o motivo para os problemas, ele disse: “A crise no Brasil e o atraso nos trabalhos de preparação.''

O presidente do COI, Thomas Bach, ressaltou só ter recebido elogios às instalações do Rio na reunião com as federações internacionais.

“Houve apoio de todo mundo. Foi um encontro muito amigável. Com a cooperação de todas as federações, faremos dos Jogos um sucesso'', concluiu Bach.