Blog do Rodrigo Mattos

Como Brasil, Rússia tem dificuldades para lidar com memórias da repressão
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No dia 7 de julho, o pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro, líder das pesquisas atualmente, declarou que lamentava a morte do jornalista Vladimir Herzog deixando como indefinida a causa do fato: ''Suicídio acontece''. Há evidências de que Herzog foi torturado e asssassinado nas dependências do DOI-CODI em 1975. A Comissão de Desaparecidos Políticos do governo já reconhceu o fato e em seu atestado de óbito consta a informação do homicídio.

Em 27 de junho, o ativista russo Yury Dmitriyev, que trabalha na recuperação da história da repressão no país, foi preso por acusações de pedofilia relacionadas a sua filha adotiva. Ativistas de direitos humanos têm certeza de que as acusações são falsas e a detenção, na verdade, é política. Dmitriyev é o membro mais destacado da ONG Memorial que trata da recuperação das memórias dos assassinatos pelo Estado na era comunista, especialmente sob Stálin.

Os dois fatos mostram um traço em comum entre Brasil e Rússia no tratamento de suas histórias: ambos têm dificuldades de lidar com memórias de seus períodos repressivos em que cidadãos foram mortos pelo Estado. No caso brasileiro, trata-se da ditadura militar que se estendeu pelas décadas de 60 a 80. No caso russo, trata-se da era soviética, ou ditadura do proletariado, que durou a maior parte do século passado, igualmente anti-democrática por não ter eleição para chefe de estado e por praticar repressão forte contra opositores.

No Brasil, houve o fortalecimento de um movimento pedindo intervenção militar nos últimos anos. A justificativa dos defensores da ideia é a corrupção em larga escala no país. Argumentam que militares poderiam limpar o cenário.

Ao mesmo tempo, esse movimento nega fatos ocorridos na ditadura como a morte de centenas de opositores nos porões da didatura, alguns torturados, assim como foi o caso de Herzog. Uma revelação recente de documento da CIA de que o ex-presidente Ernesto Geisel autorizara os assassinatos foi minimizada ou tratada como mentira por círculos militares.

Na Rússia, há um movimento similar. Uma pesquisa recente apontou Stálin como a personalidade de maior destaque da história russa. O presidente Vladimir Putin já acusou o Ocidente de demonização em excesso de Stálin.

No período dos expurgos, nas décadas de 30, Stálin matou em torno de dois terços da cúpula soviética para evitar qualquer ameça ao seu poder. Os assassinatos se estenderam a milhares de pessoas na população russa, na maioria dos casos com a justificativa de traição ao regime comunista. Ressalte-se que o governo de Stálin matou um número bem maior do que a diretoria militar brasileira.

A partir do final da década de 80, o grupo Memorial começou a resgatar a memória desses assassinatos. Um historiador chamado Dima Yurasov, atuando sem avisar o governo comunista, chegou a juntar 200 mil fichas de mortos pelo governo Stálin, compilando dados do próprio governo.

Preso atualmente, Dmitrieyev é responsável por descobrir 9.500 túmulos de corpos de pessoas mortas pelo regime em Karelia, sua cidade natal. Atualmente, o trabalho da Memorial está sob forte pressão do governo Putin, que têm leis específicas que podem reprimir a atuações de ONGs como esta.

No Brasil, o grupo ''Tortura Nunca Mais'' faz trabalho similar no Brasil, assim como houve a Comissão de Desaparecidos Políticos do governo. Não, nunca foram reprimidos. Mas os resultados dos seus trabalhos, apesar de fartamente documentados, são constantemente colocados em questionamento por correntes de direita.

A necessidade de reconstruir a memória resulta do controle feito pelos governos repressores em ambos os países em relação a história do que aconteceu de fato. Historiadores oficiais russos na época soviética só construíam versões fantasiosas que negavam as atrocidades cometidas por Stálin. Houve um período de descompreesão, em que se admitiram os erros, seguidos por outras épocas de maior repressão. Só a partir da década de 80 que essa história começou a ser reconstruída de fato.

O ensino de história no Brasil durante a período da ditadura foi quase aniquilado, transformado em Estudos Sociais. É o que conta o livro ''Os anos da didatura militar – capítulos sobre o ensino de história no Brasil'', das professoras Maria Auxiliadora Schmidt e Kátia Abud. Não havia permissão de tratar das questões sobre a repressão, assim como havia censura aos jornais.

Isso significa que, em ambos os casos, boa parte da população não teve acesso às informações, de fato, do que ocorreu durante os regimes repressivos. O Brasil, por exemplo, teve de 20 a 25 anos de período em que não aprendia sobre a própria história. A Rússia estende esse tempo por uma época muito mais prolongada. Por isso, certas fatias dos povos dos dois países simplesmente não têm noção do que ocorreu. E repassaram isso a filhos, e netos. Isso explica a defesa e exaltação de regimes repressivos e negação de fatos ocorridos no período.

Ao explicar seu trabalho, Dmitriyev disse: ''Eu não luto contra o sistema porque isso não levaria a lugar nenhum. Eu luto pela memória. Eu luto para que qualquer um que queira saber o que ocorreu com seus parentes, independentemente de que o governo queira isso ou não. Essas pessoas existiram em algum momento. Eles trabalharam e amaram e tiveram filhos. Eu estou pela proteção da liberdade da vida privada e dessas memórias.''

 


Fifa decide que Galo estará vetado de contratar se não quitar dívida
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Com Thiago Fernandes

O Comitê de status de jogadores da Fifa determinou que o Atlético-MG estará proibido de contratar jogadores na próxima janela de transferências se o clube não quitar uma dívida de R$ 2,7 milhões com o chileno Huachipato pelo jogador Otero. O time mineiro tem até 30 dias para pagar o débito e evitar a sanção. A diretoria atleticana ainda vai analisar e informou que pode recorrer.

O Atlético-MG contratou Otero em abril de 2017 com a promessa de pagar 800 mil euros. Desse total, apenas 200 mil euros forma quitados de fato, tendo o time mineiro atrasado as outras parcelas no total de 600 mil euros (R$ 2,7 milhões) que venceram em agosto de 2017, e em janeiro de 2018.

Em março, o Huachipato entrou com uma ação no comitê da Fifa para exigir o pagamento pelo jogador, pedindo punição para os mineiros. Detalhe: no final de maio, o Galo emprestou Otero para o Al Wehda por US$ 5 milhões (R$ 21 milhões), dinheiro que daria com folga para quitar a dívida. Mas não pagou.

Em 11 de junho, o Comitê de status de jogadores tomou uma decisão sobre o caso com a sanção para o Atlético-MG em caso de não falta de pagamento. Pelo prazo, o time mineiro tem até 11 de agosto para quitar a dívida, mais custos do processo de 20 mil francos suíços.

Na decisão, o Comitê da Fifa afirma que, em sua defesa, o Galo informou que reconhecia a dívida, mas que não havia motivo para impor sanções disciplinares ao clube. A alegação era que estava em contato com o credor e que havia o ''compromisso incontestável de pagar a alta quantia assim que fosse possível''.

A Fifa não se convenceu e soltou a seguinte decisão:  ''Assim levando em conta as considerações sob os números II/16 e II/17 abaixo, o escritório decide que no evento de que o reclamado (Atlético-MG) não pague a quantia devida ao reclamante (Huachipato) em 30 dias seguintes à notificação da presente decisão, uma sanção de registrar novos jogadores, nacionalmente ou internacionalmente, pela próxima janela de transferências inteira seguinte à notificação da presente decisão vai se tornar efetiva em cima do reclamado de acordo com os artigos 12bis, par4 dos regulamentos.''

Na prática, isso pode significar que o Atlético-MG já poderia ficar proibido de registrar jogadores na próxima janela de transferências brasileira que começa agora no dia 16 de julho e depois vai até o meio de agosto. A questão é que, neste prazo, ainda não terá acabado o prazo final para o pagamento do Galo. Ou seja, a punição pode ficar para a próxima janela da virada do ano.

Questionado pelo UOL Esporte, o Atlético-MG informou já ter sido notificado da decisão, mas ainda não tomou uma decisão do que fazer: ''O caso está sob análise, tomaremos decisões cabíveis. Um valor não muito alto. Não é nada alarmante. Ainda podemos recorrer desta decisão. Estamos estudando a melhor solução para o caso'', advogado do Galo, Breno Tannuri.


Neymar vive em uma bolha isolada de críticas que só o prejudica
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Eliminado o Brasil, Neymar não deu entrevistas, evitando o escrutínio de perguntas incômodas. No dia seguinte, postou uma mensagem no instagram dizendo que era o pior momento da sua carreira. Em sua página social, comentários críticos são bloqueados por mediadores, só se vê elogios e apoio.

No mesmo dia, o coordenador da seleção Edu Gaspar disse que não era fácil ser Neymar, e que tinha pena do jogador. Anteriormente, o técnico Tite já o tinha protegido em entrevista após o jogo com o México, ao impedir que respondesse uma pergunta sobre ataque de Juan Carlos Osório.

O entorno do jogador tem parças, familiares, namorada, cabeleireiro, todos dispostos a elogiá-lo o tempo inteiro. As críticas são externas, de jornalistas, de outros técnicos, de ex-jogadores. Quando ocorrem, são alvo de contra-ataque do staff do atleta como ocorreu com comentários de Galvão Bueno, ou simplesmente ignoradas.

De uma certa forma, a bolha em que vive o craque brasileiro é um reflexo dos tempos atuais. Essa realidade onde redes sociais são na maioria das vezes plataformas principalmente de exibição, e não de debate. Onde a blindagem a celebridades, no caso de jogadores, virou regra.

Não é à toa. As imagens desses atletas valem milhões em explorações de patrocínio, e portanto são protegidas arduamente para que o fluxo de dinheiro continue. Neymar é um produto e, como tal, entende que deve ser vendido, não debatido.

Esportivamente, a consequência é que a falta de acesso a críticas, ou a ignorância deliberada delas, leva o jogador a acreditar que faz tudo corretamente em campo e nada tem a evoluir. Por que se preocupar com a fama de cai-cai se, por princípio, Neymar acredita que todos os comentários negativos são uma tentativa de miná-lo? Quem pensa assim raramente vai ser capaz de mudar, de se aprimorar.

Isso não significa que o craque brasileiro seja culpado pela eliminação. Fez uma Copa de altos e baixos, uma atuação brilhante diante do México, uma decepção contra a Bélgica. Fato é que poderia ter dado muito mais ao time pelo seu potencial ainda que recentemente tivesse se recuperado de contusão.

Para que ele atinja seu auge, não adianta estender um tapete vermelho para Neymar ou protegê-lo em excesso. O futebol tornou-se um jogo de atletas milionários e suas imagens superprotegidas, mas continua a ser jogado no mesmo gramado verde habitado por zagueiros duros. Quem não enfrenta e aprende com críticas ou recebe cobranças fora de campo vai ter dificuldade para se virar com as botinadas dentro dele.

 


Apesar do bom trabalho, Tite errou e não deveria ser imune a críticas
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Ao assumir a seleção brasileira há quase dois anos, o técnico Tite transformou um caos em um time organizado. A ponto de chegar à Copa com ares de favorito o que se intensificou com a queda de rivais. Sua eliminação nas quartas-de-final para a Bélgica tem um quê do acaso do futebol, mas tem, sim, erros cometidos na campanha.

É melhor o Brasil aprender com erros do que simplesmente atribuir a derrota ao aleatório. Então, vamos tentar traçar aqui alguns pontos que este blog viu como equívocos. Até porque os elogios a Tite, a maioria justos, já foram em abundância.

Em relação à escalação da partida contra a Bélgica, está claro que a ideia de Roberto Martínez prevaleceu sobre a Tite no início do jogo. A formação mais defensiva da Bélgica – com Fellaini e Chadli nos lugares de Mertens e Carrasco – ofereceu uma resistência maior para a seleção do que se via em jogos anteriores do time europeu.

Mas foi ofensivamente que a postura belga desorganizou o Brasil. Com dois na frente e um meia encostado, a Bélgica estabeleceu uma rotação de posições em que os volantes brasileiros Fernandinho e Paulinho, em jogos ruins, simplesmente não achavam os rivais. Lukaku recuou para armar o contra-ataque do segundo gol de De Bruyne. Hazard estava em todos os lados, da esquerda para o meio.

E aí há uma erro crasso: Fernandinho é mesmo que estava perdido no 7 a 1 para a Alemanha. ''Ah, mas faz muito tempo – Naquela vez, ele tinha o Luiz Gustavo como primeiro volante – o Guardiola adora ele''. Bom, fato é que o mesmo volante fracassou de forma retumbante em duas eliminações brasileiras em Copa. Será que foi uma boa ideia apostar nele como único reserva de Casemiro na posição?

Tite acertou na substituição com as entradas de Renato Augusto e Douglas Costa – que foram bem – no lugar de Paulinho e Jesus. A seleção voltou a ser um time da metade do segundo tempo para o final. Antes disso, era na base da tentativa e erros, com lances individuais.

Outro equívoco foi a manutenção por tanto tempo de Gabriel Jesus como titular. Está claro que não vive boa fase. Além de não marcar em cinco jogos, não estava ajudando a fluidez do ataque. Destaca-se sua capacidade de marcação, mas foi ele que permitiu uma conclusão de Kompany no primeiro pau por marcar mal o escanteio.

É verdade que se saísse um gol de empate e o Brasil tivesse virado não seria nenhum absurdo. Mas é irreal achar que a seleção fez um grande jogo. Na maior parte do tempo, foi mal coletivamente e mostrou claros sinais de nervosismo quando em desvantagem. É só ver quantas conclusões tecnicamente fáceis errou. Se chutou tanto a gol, e tão mal, há algo errado aí.

Outro aspecto a se destacar é a gestão de elenco, tão elogiada em Tite. Bom, o Brasil tem em Neymar seu melhor jogador e ele não rendeu o esperado. Durante a maior parte do tempo, esteve envolto em uma controrvérsia sobre seu cai-cai. Tite o protegeu publicamente.

Houve uma chamada do técnico no atacante que até melhorou sua postura após os dois jogos iniciais. Mas, nas quartas, de novo, ele insistia em quedas, sendo que o próprio técnico foi pedir árbitro de vídeo para um lance em que Neymar… se jogou. Ora, isso não é referendar a simulação? No final, ele tem jogado menos do que pode em diversas ocasiões por isso, e cabe ao treinador mostrar essa realidade já que seu entorno limita-se a bajula-lo. Hazard, por exemplo, estava difícil de derrubar em contraste.

Há questionamentos pertinentes e justos também sobre a montangem de elenco, e a questão das contusões. Por exemplo, Tite morreu na Copa com Taisson no banco. Com a convocação questionada, o jogador nunca parece ter sido uma opção real quando houve problemas. Estava ali por que se podia haver alternativas reais em seu lugar?

Fred ficou a Copa inteira com problemas físicos. Não foi cortado para dar lugar a outro e nunca jogou. O próprio Renato Augusto perdeu jogos. Será que não era o caso de ter menos jogadores em estado físico complicado para a fase final?

Obviamente, esses questionamentos aqui expostos não são verdades absolutas, nem explicam a eliminação do Brasil como tábua de regras. Mas é importante, sim, criticar por que é só assim que se evolui, como ocorreu após 2014. Não dá para só botar na conta de um pé torto na conclusão.

PS A continuidade do trabalho de Tite, que é a preferência da diretoria da CBF, é a melhor escolha para atual conjuntura do futebol brasileiro. Ele é o treinador mais preparado para dirigir a seleção, especialmente com mais quatro anos. Terá, assim, a oportunidade de aprender com a Rússia-2018.

 


Bélgica tem produção ofensiva quase igual ao Brasil. Diferença é a defesa
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Uma análise dos números ofensivos de Brasil e Bélgica, rivais nas quartas de final, mostra times com produção praticamente igual na frente, embora os adversários tenham mais gols. Há uma diferença em relação à defesa dos times, bem mais eficiente no caso brasileiro. Diante da seleção, a ofensividade belga deve se repetir, mas com ajustes.

O sistema tático da Bélgica não é igual ao nacional, especialmente em relação à defesa. Enquanto Tite usa seu 4-1-4-1, o treinador Roberto Martínez prefere jogar com três zagueiros com um 3-4-3 que explora a velocidade de seus ponteiros (Mertens e Hazard) e a qualidade de seus armadores (De Bruyne e Witsel).

Com ideias diferente de como ganhar o jogo, a Bélgica chutou tanto a gol quanto o Brasil: foram 77 conclusões para cada um dos dois times. O número de oportunidades de gol é também similar com 73 para os brasileiros e 71 para os belgas. O time europeu, no entanto, tem 12 gols contra sete da seleção.

As duas equipes ainda se igualam na intenção de ter a bola: ambas tiveram mais posse do que os rivais com percentuais quase iguais, 55% a 56%. Deram uma quantidade parecida de passes: Brasil 2282, e Bélgica, 2189. A precisão nos passes também é similar.

Martinez indica que não vai abrir mão deste estilo diante do Brasil . ''Você tem que ser taticamente flexível, mas isso não significa escolher um sistema diferente para cada corrida (jogo). Tem que haver uma continuidade, e você tem que se ajustar a cada corrida'', observou o treinador, em entrevista ao ''Sporza'' no dia seguinte a se classificar às quartas-de-final.

Os ajustes necessários parecem ser mais na forma como conter o Brasil. Por que se os times se igualam na frente, o Brasil mostra muito mais eficiência na recuperação da bola por ter um posicionamento bem mais consistente na defesa.

A seleção brasileira conseguiu 183 recuperações de bola, e a Bélgica, 145 durante a Copa. O time nacional também supera em número em chegadas junto (carrinhos ou divididas) para retomar a posse.

Uma consequência de o Brasil ter volantes típicos como Casemiro e às vezes Fernandinho, enquanto a Bélgica tem Witsel e De Bruyne que mais ocupam espaços do que apertam na marcação. Há bastante liberdade para jogar à frente do trio de zagueiros belgas.

Não por acaso o Brasil sofreu apenas um gol na Copa, aquele lance de Zuber diante da Suíça. Enquanto isso, a Bélgica já foi buscar a bola na rede por quatro vezes, uma vez por partida em média. Sofreu dois gols em duas ocasiões, diante de Japão e Tunísia.

 


Ataques a Neymar lembram campanha contra Suárez na Copa-2014
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Sim, Neymar exagera na reação às faltas sofridas e isso não é correto por tentar criar uma vantagem indevida no jogo. Dito isso, há um exagero nas críticas ao atacante brasileiro especialmente em parte da mídia estrangeira ao se maximizar os seus erros e se minimizar suas qualidades. Algo parecido com o que ocorreu com o uruguaio Luis Suárez durante a Copa-2014 pela sua agressão a jogador italiano – os dois atos não são comparáveis, as campanhas, sim.

Como já dito neste blog, e virtualmente em todos os lugares, Neymar promoveu um excesso de quedas com giros nos dois primeiros jogos do Brasil. Isso criou uma antipatia entre estrangeiros até compreensível no início da Copa. Mas, a partir daí, a postura do jogador mudou.

Diante do México, ele rodopiou no chão quando sofreu um pisão de Layun, um teatro descenessário. Mas o pisão existiu e não foi punido com cartão como merecia. E, depois disso, começou a onda com Osório dizendo que ''futebol para homem'', seguido por outros jogadores mexicanos atacando o e esquecendo que foram superados na bola.

Um jornal inglês chamou o de falso. O ex-jogador Lineker, um dos mais lúcidos comentaristas do futebol atual, ironizou ao dizer que ele tinha um baixa capacidade de suportar a dor. No centro de imprensa de estádio de Moscou, onde eu estava, havia exclamações de indignação de jornalistas estrangeiros como se Neymar tivesse agredido alguém.

Lembra bastante o ataque de fúria contra Luis Suárez após ele morder Chielini na Copa-2014.  Não, não estou comparando os dois fatos, são bem diferentes. Suárez agrediu, errou feio e mereceu sua punição ao ser excluído da Copa. Mas, a partir daí, houve uma gritaria como se ele fosse um animal que não soubesse se comportar entres seres-humanos. Houve quem defendesse que fosse banido do futebol.

Peraí, onde estava essa cobrança toda por comportamentos éticos e postura quando ingleses e belgas botaram times reservas quando uma derrota os dava uma chave mais fácil? Onde estava a gritaria toda quando japoneses ''jogaram para perder''? Neymar é o único jogador do futebol mundial que simula? O que fez Cristiano Ronaldo em seus saltos contra o Marrocos para cavar pênaltis (muito mais discretos do que os de Neymar, diga-se)?

A transformação de um jogador em vilão da Copa não faz nenhum sentido. Neymar trouxe para si mesmo essa onda ao se jogar demais no início da Copa, mas os ataques que sofre são exagerados e ofuscam a ótima Copa que faz. E só enxerga-se defeitos em um jogador que tem muitas qualidades. O ser-humano é complexo: reduzir sua descrição a apenas uma faceta não é correto.

Entres as maiores estrelas Mundiais, incluídos aí Messei e Cristiano Ronaldo, Neymar e Mbappé foram os únicos capazes de atuações brilhates nas eliminatórias da Copa. Considerado todo o Mundial, o atacante brasileiro tem tido um desempenho de ótimo nível, com alto número de dribles, passes decisivos e conclusões a gol. Resumir um jogador desse só ao seu defeito é uma injustiça.


Fifa tem um dilema: sombra de manipulação crescerá com a Copa com 48 times
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A fase de grupos da Copa da Rússia-2018 acabou com questionamentos em relação a armações em certos jogos, seja para ter um adversário mais fraco, seja para se classificar com um empate ou uma derrota. O time não joga de fato para vencer, embora não seja uma manipulação clara de resultado. A Fifa não se diz preocupada. Mas essa sombra sobre a competitividade dos jogos vai crescer ainda mais quando a Copa tiver 48 times.

Lembremos os questionamentos aos comportamentos das seleções nesta Copa. Primeiro, Dinamarca e França jogaram uma partida extremamente fria, com reservas, e empataram, resultado que dava a um a classificação e a outro, o primeiro lugar. Segundo, Japão acabou seu jogo com a Polônia sob vaias por não atacar: os cartões amarelos (critério fair play) lhe davam uma vaga sobre Senegal.

Terceiro, Bélgica e Inglaterra não armaram nada, mas botaram reservas em campo em jogo que definia o primeiro lugar do grupo, que deve pegar um lado mais forte na chave da Copa do Mundo (foi a Bélgica). Todas essas são situações que tiraram a competitividade das partidas para dizer o mínimo.

Pois bem, a partir de 2026, nos EUA, México e Canadá, a Copa terá 48 seleções, com grupos de três times e dois classificados. Isso significa que aumentará consideravelmente a chance de duas equipes jogarem a última partida com a possibilidade de armarem um resultado para obterem a vaga.

É o que mostrou em um artigo recente no ''New York Times'' o matemático francês Julien Guyon. Sua tese aponta que há três situações em que os dois times que jogarem por último podem armar um resultado específico que classificaria a ambos. Claramente, a equipe que jogasse as duas partidas primeiro seria prejudicada, pois poderia sofrer uma manipulação na última rodada.

Nos cálculos de Guyon, um grupo com um time bem mais forte sendo o primeiro a atuar duas vezes teria uma chance de menor de armação, em torno de 15%. Se a tabela não fosse assim, as chances seriam de 50%. No geral, com 16 grupos disponíveis, a abertura para a manipulação seria bastante provável.

A Fifa já cogitou pênaltis para não ter empates já na fase de grupos, o que não eliminaria completamente a possibilidade de armação.

A verdade é que as implicações da Copa com 48 times ou não foram consideradas ou foram minimizadas. Se há questionamentos sobre armação com o regular grupo de quatro, imagine com três equipes e todas suas variações. O que a Fifa poderia enfrentar seria uma nova situação como a da Copa de 1982 em que houve claros sinais de armação entre Alemanha e Áustria, em uma vitória alemã que eliminou a Algéria e classificou ambos.

Em um mundo que reputações são destruídas rapidamente, teria um efeito devastador sobre a Copa que uma partida da fase de grupos acabasse de novo com um empate sem ninguém atacando, ou uma vitória em que o time perdedor parecesse pouco se importar. Poderia levar um descrédito à competição difícil de recuperar. Será que os bilhões a mais que a Fifa vai ganhar com o Mundial de 48 times valem esse risco?

Tags : Copa-2018


Facebook e Esporte Interativo ganham direitos da Champions no Brasil
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O Facebook e o Esporte Interativo ganharam a concorrência dos direitos de televisão da Liga dos Campeões no Brasil a partir de 2018/2019 por mais três anos. O gigante de mídias sociais vai ficar com a TV aberta, substituindo a Globo que não entrou na licitação. Já a Turner mantém os direitos de TV fechada.

O processo ainda não está plenamente concluído com negociações para acertar detalhes. Mas os vencedores já estão definidos e não vão mudar, pelo que apurou o blog. A questão é como será a divisão de jogos das duas plataformas. Há a possibilidade de um acordo entre as partes para dividir os jogos.

A maior surpresa é o fato de a Globo perder os direitos da TV aberta. A competição vinha dando altos índices de audiência, mas a emissora acabou não fazendo proposta para os direitos. A Globo tem investido pesado em outros direitos com o aumento da concorrência: teve que aumentar valores pagos por competição que já tinha como o Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil.

O Facebook assim dá mais uma passo de crescimento no mercado esportivo. Já tinha obtido o quarto pacote de mídia da Libertadores, que representa todos os jogos na quinta-feira e agora avança. A empresa de mídias sociais também disputou a TV aberta da Libertadores com a Globo, chegando a fazer proposta pelo pacote do Brasil, segundo apurou o blog.

A entrada do Facebook no mercado de futebol brasileiro e da América do Sul é uma mudança na política da empresa no país. Inicialmente, informara que não investiria em direitos esportivos. O gigante de mídias sociais é reconhecido pela grande capacidade de alavancar receitas com publicidade, concorrendo com o Google com plataforma midiática que mais atrai anunciantes mundialmente.

Na concorrência da TV fechada, havia a possibilidade de o SporTV fazer uma proposta juntamente com a ESPN, o que não se concretizou. O blog chegou a publicar que isso estava previsto, mas, de fato, não ocorreu. O canal pago do grupo Globo também não entrou na concorrência.

A Turner fez uma oferta e manteve por mais três anos os direitos da competição. Não está claro se houve concorrência nesta parte para a TV fechada.

Pela divisão, só o pacote principal de TV aberta teria direitos sobre a final da Liga dos Campeões. Mas a negociação entre as partes pode transformar essa realidade. Por isso, é difícil saber neste momento como será a divisão de jogos, e se haverá partidas exclusivas. Nem há data prevista para a divulgação do resultado.

 

 

 

 


Futebol ultraofensivo da Bélgica é um refresco na Copa das retrancas
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Estava sol no Estádio do Spartak, a festa das torcidas belga e tunisiana ao lado de fora era animada, tudo pronto para uma tarde de futebol. Futebol bem jogado, para fazer gols, para encantar. Foi o que a Bélgica apresentou com seu esquema ultraofensivo que destoa na Copa das retrancas.

Não por acaso já que conta com uma linha de ataque composta por Mertens e Hazard nas pontas, com o centroavante Lukaku. Servidos pela classe de De Bruyne, e pelo toque de bola de Witsel. Neste 3-4-3, ainda há um ala esquerdo que mais ataca do que defende em Carrasco.

O ritmo alucinante levou a dois gols em menos de 20min. É certo que atrás o time se expõe bastante, e por isso a Tunísia aproveitava o espaço no meio-campo. Mas dava gosto de ver.

A recuperação de bola era seguida por passes verticais dos meias e corridas alucinantes dos ponteiros Mertens e Hazard, este o melhor do jogo, com sua condução de bola grudada no pé. Com a vantagem, a Bélgica continuava a ter às vezes oito jogadores à frente.

Contra um time de qualidade ofensiva limitada, dava para correr riscos, ainda que tenha tomado dois gols. O dilema belga será quando enfrentar equipes mais fortes como Brasil, Alemanha ou França. Jogadores desses times serão capazes de explorar esse latifúndio no meio-campo. Até porque, ao se defender, forma-se uma linha de cinco (com a volta de Carrasco e Meunier) que está muito atrás, com pouca proteção de De Bruyne e Witsel, lhes falta cacoete de volante típico.

Isso é uma questão para ser respondida mais à frente. De certo, a Bélgica apresentou o futebol mais interessante do Mundial até agora, com seus passes verticais, posse de bola objetiva e qualidade e inteligência nas conclusões das jogadas.

 


Neymar tem atraído antipatia estrangeira pelo excesso de quedas
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A cena ocorreu no centro de mídia do Estádio do Spartak, em Moscou: a queda de Neymar no suposto pênalti contra a Costa Rica causa um grunhido de indignação entre jornalistas neutros de outros países. Quando o árbitro Bjorn Kuipers anulou a marcação, houve alguns aplausos.

Não é um fenômeno isolado. Tem sido comum jornalistas estrangeiros pedirem cartões amarelos ou punições pelas simulações ou reclamações constantes do craque brasileiro. Imagens da partida diante da Costa Rica mostram Neymar caindo, ofendendo o árbitro em mais de uma vez e sendo grosseiro ao pedir que este não o toque.

A irritação de Kuipers é evidente nos lances em que manda o brasileiro se levantar. A mesma irritação é vista em outros jornalistas, especialmente europeus, que veem como desrespeitosa as atitudes do jogador brasileiro.

Como bicho papão de Copas do Mundo, o Brasil não é exatamente querido na mídia estrangeira e entre torcedores de outros países com tradição no Mundial. É um pouco o time a ser batido em determinadas circunstâncias.

Mas jogadores de alto quilate como Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar (não, ele não está no mesmo patamar técnicos dos outros) costumam causar admiração pelo que são capazes dentro de campo. O adorador de futebol se ajoelha diante do craque quando ele brilha intensamente. É só ver nossa admiração com o português e o argentino.

No caso de Neymar, no entanto, essa admiração cada vez mais se transforma em repulsa. Porque as atitudes do craque brasileiro são vistas como antidesportivas. Parece que está sempre querendo levar vantagem ao torcer as regras do jogo, ao pressionar por decisões favoráveis.

Essa percepção geral, além de aumentar uma já grande pressão sobre ele, espirra para o campo. O departamento de arbitragem da Fifa costuma marcar jogadores com tendência a se jogar demais, e será mais difícil que estes consigam faltas marcadas, mesmo quando forem. No final, não há nada que Neymar tenha a ganhar com o tipo de comportamento que tem exibido nesta Copa.