Blog do Rodrigo Mattos

Até CBF prefere a Liga dos Campeões. Brasileiro é ofuscado

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A decisão da Liga dos Campeões ofuscou a rodada do Brasileiro, inclusive dentro do terreno nacional. Até a CBF deu mais atenção à final do campeonato europeu do que ao jogo Cruzeiro e Inter que definiu o líder da competição nacional. Detalhe: a confederação é a organizadora do Nacional.

Vamos aos fatos. A decisão entre Atlético de Madri e Real Madri foi exibida em tv aberta, em rede nacional, pela TV Globo. Ainda não havia a audiência global do evento disponível, mas as finais do torneio têm atingido em torno de 150 milhões de audiência nos anos recentes – um total de mais de 500 milhões de pessoas. Só perde para Copa e Olimpíada. No Estádio da Luz, eram disputadíssimos 60 mil lugares.

Nem sempre foi assim. O evento tem crescido a cada ano e só chegou à tv aberta no Brasil há poucos tempo. Por quê isso ocorreu?

Primeiro, a UEFA (Federação Europeia de Futebol) estruturou a competição de forma a fortalecer financeiramente seus participantes. Um campeão leva € 37 milhões (R$ 110 milhões) fora a participação de mercado que pode dobrar esse valor. Ou seja, um time pode levar o dobro do que arrecadam Corinthians e Flamengo pelo Brasileiro – eles vendem 38 jogos, contra 14 das equipes europeias.

Segundo, os estádios utilizados têm um padrão único, testado por oficiais da UEFA antes da competição e novamente com dias de antecedência dos jogos. Há técnicos preparados em cursos da entidade para o serviço. Isso é perceptível, por exemplo, na qualidade dos gramados.

Terceiro, o dinheiro gerado pelo torneio – um total de € 1,3 bilhão – atinge patamar elevado porque a UEFA promove e organiza a Liga dos Campeões para torná-la maior a cada ano. Veja o site da entidade: tem um acompanhamento online de cada jogo, com estatísticas, mapas de calor, etc. O twitter da competição bombardeia a internet com informações do campeonato antes, durante e depois dos jogos.

Não há uma conta específica no twitter do Brasileiro. Na última rodada do Nacional, o twitter da CBF não fez nenhum comentário sobre qualquer dos jogos. Mas não se esqueceu de parabenizar o lateral-esquerdo Marcelo pelo título da Liga dos Campeões pelo Real Madri.

O site da CBF ainda informou que o presidente da confederação, José Maria Marin, e seu vice, Marco Polo Del Nero, estavam em Lisboa para assistir à decisão do campeonato europeu. O Brasileiro apareceu no site no final de domingo, com um resumo da rodada que deu a liderança ao Cruzeiro. Nem a tabela de classificação foi atualizada até o domingo à noite.

Mais, o jogo entre Cruzeiro e Inter ocorreu em Caxias do Sul porque o Beira-Rio está entregue à Fifa para preparativos para a Copa-2014. Por quê não pôde ser utilizada a arena colorada em um jogo entre os times mais bem posicionados do campeonato? A esculhambação do calendário da CBF estendeu o Nacional até o dia 1o de junho, a 11 dias do Mundial, o que esvaziou a competição local.

Resultado: o jogo que decidiu o topo do Brasileiro teve 7.541 pagantes. Marcado para um domingo à noite, foi transmitido apenas em  tv fechada. Ocuparam o horário nobre partidas de meio de tabela jogadas por Corinthians e Flamengo, também com públicos fracos.

O Brasileiro, e não a Libertadores, é o campeonato de clubes mais rico do hemisfério Sul. Mas não é uma competição que se compare com a Liga dos Campeões sob o ponto de vista global, assim como com ligas nacionais europeias. A questão é que, da forma como os dois são organizados e promovidos hoje, elas poderão sim ser concorrentes, dentro do Brasil.