Blog do Rodrigo Mattos

É justo o Corinthians competir contra o Grêmio gastando mais do que pode?

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Corinthians e Grêmio são os dois times na ponta do Brasileiro e portanto têm uma disputa direta pelo título. Para que exista uma competição justa entre eles, deveriam estar submetidos a condições parecidas. Não é o que acontece sob o ponto de responsabilidade no controle financeiro.

Esse é um conceito difundido na Europa onde está implantado o fair play financeiro. Os clubes têm que manter os déficits em níveis controláveis, e cumprir seus acordos por pagamentos, sem calote. Ou podem ser impedidos de disputar competições. No Brasil, a CBF iria implantar sistema igual, mas afrouxou as regras para 2018.

Pois bem, o Corinthians apresentou nesta semana um balancete de meio de ano com déficit de R$ 35 milhões. A receita do clube caiu com menos dinheiro de televisão, de venda de direitos de jogadores e patrocínio, na comparação proporcional ao ano de 2016.

E o que fez o clube? Conteve os gastos? Não. Suas despesas com pessoal do futebol ficaram em R$ 77 milhões em seis meses, contra R$ 123 milhões no ano inteiro de 2016. Conta com atletas caros como Jô e Jádson que chegaram em 2017. Houve redução no investimento em contratações.

Contabilizadas todas as despesas do futebol, excluídas as com percentuais de vendas de atletas, o departamento custará R$ 10 milhões a menos do que em 2016 no ritmo atual. Como já amplamente noticiado, assim, o clube têm dívidas em negociações de jogadores, entre outras.

Do lado gremista, o clube também está longe de estar nadando em dinheiro, mas gastou o quanto podia. Tanto que o balancete dos três primeiros meses mostra um superávit de R$ 3 milhões, e um valor próximo do que estava orçado.

Neste cenário, a diretoria do Grêmio decidiu que tinha que vender seu principal jogador Luan para fechar as contas do ano. Claro que a proximidade do fim do seu contrato pesa. Mas fato é que o clube prepara a saída de seu craque para se manter na linha fiscal. Resta sabe se ele vai topar.

Enquanto isso, a diretoria do Corinthians recusou propostas pelos seus principais jogadores, abrindo mão de R$ 90 milhões. A cúpula corintiana não é obrigada a vender atletas, mas será que agiria da mesma forma se houvesse um fair play financeiro? Obviamente, as duas escolhas dos clubes terão impacto no resultado final do campeonato.

Não é só isso. O Corinthians também está quitando apenas parte da dívida (juros e não em todos os meses) que tem com o BNDES pelo financiamento de seu estádio, por meio da Caixa Econômica. Essa situação perdura há mais de um ano. O dinheiro da bilheteria seria usado para o pagamento, e está retido no fundo. Em caso de não ser suficiente, o clube poderia ter de completar.

Já o Grêmio é obrigado a pagar em torno de R$ 1,5 milhão mensal para seus sócios usarem a arena. A operação de venda pela OAS para o clube está emperrada há mais de um ano.

Ou seja, um time paga pelo seu estádio, e o outro, não. Ambos usufruem do ganho esportivo das arenas, mas não têm bilheteria por essas já que os valores são retidos.

No futebol, o dinheiro não é tudo para se obter desempenho, como se vê nos fracasso de Flamengo e Palmeiras. Mas é um fator importante: estudos em campeonatos europeus mostram que tabelas de pontos corridos refletem orçamentos, com algumas exceções. Em mata-matas, isso é menos direto. Ora, se um clube se esforça para manter as contas em dia, e o outro financia seu time com rombos orçamentários, o segundo obviamente terá uma vantagem.

Não se está aqui tirando os méritos esportivos do técnico Fábio Carille e de seus comandados para estarem no topo da tabela. Estão ali porque jogaram mais do que os rivais, inclusive o Grêmio. Mas é fato que a diretoria corintiana só montou o time atual ao ignorar a regra básica de gastar menos do que podia.