Blog do Rodrigo Mattos

Corinthians investiu no time sem ter caixa suficiente, diz análise de banco

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O Corinthians investiu em contratações de jogadores no ano de 2017 sem ter dinheiro em caixa suficiente. É o que mostra uma análise do Banco Itaú BBA que compara as contas do clube alvinegro e do Flamengo no primeiro semestre. O time carioca gastou bem mais com sua equipe do que o rival corintiano, mas tinha recursos disponíveis.

A avaliação do Itaú BBA mostra uma piora nas contas corintianas que compromete o futuro do clube. Isso porque há aumento de dívida operacional (com clubes, fornecedores), redução de receitas, gastos excessivos e indicativo de antecipação de renda. No caso rubro-negro, a análise mostra um cenário positivo.

O estudo aponta como principal ponto para avaliar as contas o Ebitda (Earnings before Interest, depreciation and amortization) que determina o dinheiro em caixa disponível para investimento ou pagamento de dívidas. Ou seja, o que sobra após o pagamento de despesas correntes.

No caso do Corinthians, a receita líquida foi de cerca de R$ 129 milhões, e as despesas de aproximadamente R$ 119 milhões. Assim, a sobra de caixa foi em torno de R$ 9 milhões (com arrendondamento). Só que o investimento em contratações foi de R$ 23 milhões, isto é, quase o triplo do disponível (256%).

''Gastou mais do que podia na prática'', contou Cesar Grafietti, analisa do Itaú BBA. ''Não é alto. O Corinthians costuma gastar R$ 50 milhões por ano (em contratações). Mas foi mais do que podia''. Isso se explica porque a receita corintiana foi bem abaixo do usual.

No caso rubro-negro, com a venda de Vinicius Jr, a receita líquida foi de R$ 369 milhões, com despesas na ordem de R$ 156 milhões. Mas, da receita, o estudo retirou R$ 60 milhões de Vinicius Jr que só serão pagos em 2019. Assim, a sobra de caixa do Flamengo foi de R$ 153 milhões. Seu investimento foi de R$ 78 milhões, isto é, 51% da sobra de caixa.

Assim, na sequência, a análise do Itaú BBA conclui sobre o Corinthians: ''Ou seja, teve que vir dinheiro de algum lugar para fechar a conta''. E começa a analisar o endividamento e as perspectivas futuras corintianas para entender de onde saiu o dinheiro para montar o time

Primeiro, é preciso que se diga que a análise tem um critério diferente para contabilizar débito em relação ao endividamento líquido usado pelos próprios clubes (entenda mais abaixo). Por isso, o número é diferente do deste post do blog que usa o critério do débito líquido, que utilizou o critério dos próprios clubes. No caso do Itaú,  o passivo bruto dos dois times é similar R$ 482 milhões (Flamengo) e R$ 483 milhões (Corinthians).

Há uma diferença, no entanto, de perfil. Ambos devem impostos com pagamento alongado no Profut. Mas o Flamengo tem dívida bancária maior (R$ 90 milhões contra R$ 18 milhões), enquanto o Corinthians tem débito operacional maior com fornecedores. São R$ 259 milhões em dívidas operacionais corintianas, contra R$ 135 milhões rubro-negras.

E, pela análise do Itaú BBA, há um indicativo de que parte disso foi de antecipação de receitas feitas pelo Corinthians, o que comprometeria o futuro. ''Veja que no caso do Corinthians as Dívidas Operacionais cresceram 88% entre Dezembro/16 e Junho/17. E como não há detalhamento no balanço que nos ajude a entender exatamente o que houve, baseamos nossa avaliação no que está disponível, que é um crescimento relevante da conta “Receitas a Realizar”, que usualmente abarca os Adiantamentos de Patrocínio e TV'', analisa o estudo.

''Quando só se contabiliza no ativo e não no passivo a receita a realizar, é em geral adiamento'', explicou Cesar Grafietti. ''Vai faltar receita. Vai ter restrição de receita. Aí o clube entra naquela espiral, tem que vender atleta para cobrir. O Corinthians vai ter que vender atleta simplesmente para cobrir buraco.''

No caso do Flamengo, o analista entende que o aumento da dívida operacional é resultado das contratações, mas está sustentado pelo fluxo de caixa atual e futuro. O clube vendeu um jogador (Vinicius Jr) e investe parte desse dinheiro em outro (Everton Ribeiro).

Ao final, o estudo descreve que a vantagem rubro-negra nas finanças não se refletiu em campo pelo menos no Brasileiro. E ressalta que o time carioca está em mais duas competições (Copa do Brasil e Sul-Americana) e que ambos conquistaram os Estaduais.

''Fato é que, dentro de campo, a supremacia Flamenguista nas finanças não se traduziu em vitórias e pontos, nas duas principais competições do ano. Entretanto, o clube ainda se mantém na disputa em duas competições importantes. Já o Corinthians consegue destaque absoluto no Brasileirão, o que comprova que a gestão esportiva se destaca da financeira.''

PS: Para explicar melhor, a diferença de critério de contabilização de dívidas se explica porque a análise do Itaú BBA tenta se focar nos débitos que podem causar a maior ''quebra'' nos times/empresas. Cesar Gratietti ressalta que não considera o ativo (dinheiro que o clube tem a receber) na conta porque muitas vezes esse dinheiro não chega apesar de ser contabilizado.