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Será que foi o Cruzeiro que 'venceu' na negociação de Fred?

rodrigomattos

27/12/2017 04h00

Às vésperas do Natal, o Atlético-MG acertava a rescisão de Fred. Cruzeiro, Flamengo e Fluminense mostraram interesse no jogador durante a semana. E o clube mineiro anunciou ter fechado com ele no sábado. Diante disso, a equipe celeste pode se considerada vitoriosa na negociação?

Primeiro, lembremos que a operação de Fred não é barata. Como publicou o UOL, pode atingir R$ 45 milhões em três anos, depende da questão da multa e de um eventual apoio de parceiros. Para se investir um dinheiro desse em um jogador, deve estar sobrando dinheiro no Cruzeiro né?

Não é o que mostram os números. A gestão do ex-presidente Gilvan de Pinho Tavares mais do que dobrou a dívida cruzeirense durante seus seis anos. Em 2011, o número era de R$ 120,3 milhões (ou R$ 168,6 milhões com correção pela inflação). Saltou para R$ 363 milhões ao final de 2016, um aumento de 115%.

Há controvérsia sobre o número atual, sendo que Zezé Perrella, presidente do Conselho do Cruzeiro, aponta um valor ainda maior, alegando que não foram pagos impostos. (Perrella, aliás, que deixou o clube em situação difícil em 2011, mas com rombo menor). Mas vamos nos ater ao que é fato registrado no balanço.

Não é que a dívida saiu do nada: o Cruzeiro operou em déficit nos cinco anos da gestão de Gilvan, ainda não se sabe os números de 2017. Ganhou títulos, mas nunca fechava no azul, mesmo em 2015 quando vendeu toda a base do time campeão brasileiro. Sua dívida já ultrapassa a receita do ano que ficou em R$ 238,4 milhões. Até porque a renda do clube cresceu em velocidade bem menor do que a débitos.

Só em pendências na Fifa há cobranças no valor de R$ 50 milhões contra o Cruzeiro por contratações não pagas. Ora, um clube nesta situação assumir uma despesa que pode atingir R$ 15 milhões por ano é aumentar as possibilidades de não fechar a conta no final do ano. O novo presidente cruzeirense, Wagner Pires de Sá, sinaliza que repetirá a gastança do antecessor sem ter resolvido os problemas financeiros.

Do outro lado, a gestão do Atlético-MG ia pelo mesmo caminho nas mãos do ex-presidente Daniel Nepomuceno. Não havia dinheiro suficiente para pagar o último time, o que ficou provado com as necessárias saídas de Fred e Robinho. A dívida alvinegra é até maior: atinge R$ 518 milhões ao final de 2016. A ver como ficou após este ano.

E Daniel já dobrava a aposta em relação ao antecessor Alexandre Kalil, que aumentou a dívida do Galo. Kalil e Gilvan têm gestões vitoriosas em campo, mas ambos deixaram seus sucessores em condições bem complicadas.

Ao dispensar jogadores caros, o novo presidente do Atlético-MG, Sergio Sette Câmara, parece tentar botar um freio na gastança anterior. Não havia mais como continuar naquela toada, ou o clube aumentaria seu rombo e poderia ter dificuldades para pagar o dia a dia.

No caso da dupla Flamengo e Fluminense, o clube rubro-negro sofreu para conseguiu uma recuperação financeira iniciada desde 2013. Agora, tem mais dinheiro para investir, mas controla seu orçamento para não repetir os rombos do passado. Era ou Fred ou Guerrero. Como a situação do segundo não se resolveu…

O clube tricolor carioca tem tentado seguir pelo mesmo caminho na gestão de Pedro Abad. Há pressão da torcida por investimentos, por contratações, mas não há dinheiro. O salário que Fred receberá no Cruzeiro certamente não se encaixaria na atual situação do Fluminense, voltando a repetir os valores impraticáveis da época da Unimed. Tudo que o clube não precisa agora.

Nem vou discutir aqui as qualidades técnicas de Fred. Se um jogador não cabe no caixa de um clube, sua contratação não deveria sequer ser pauta. Gastar menos do que se ganha é um princípio básico de qualquer administração de empresa meia-boca.

Pode ser que o Cruzeiro ganhe a Copa do Brasil no final de 2018, arrecade o prêmio de R$ 50 milhões da CBF e diga que Fred se pagou (o mesmo com uma Libertadores). Sem títulos, será uma temporada complicada para fechar a conta. É como se os dirigentes cruzeirenses tivessem feito uma aposta de "all in" com o futuro do clube na mesa.

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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