Blog do Rodrigo Mattos

Futebol brasileiro tem desaparecimento de 44 clubes em 2017

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O futebol brasileiro perdeu 44 clubes profissionais em 2017, isto é, cerca de 6% do total. É o que mostra um levantamento da CBF em cima da atividade esportiva, divulgado nesta semana. Cartolas ouvidos pelo blog apontam como motivos regras mais duras de legislação, um amadurecimento do mercado, crise financeira e clubes sazonais de empresários ou eleições.

Primeiro, é importante que se diga que o desaparecimento de clubes não é necessariamente uma notícia ruim. Tanto que houve aumento do número de contratos de jogadores. E a redução de número de times aproxima o Brasil de um mercado mais concentrado em menos equipes como em parte da Europa.

Vamos aos números da CBF. Pelo seu cadastro de clubes, a CBF registrava 783 agremiações em 2009. Em 2015, a entidade registrava 776 clubes, montante que teve pequena queda para 766 no ano seguinte. Mas, em 2017, esse total ficou em 722, uma redução mais significativa.

Isso não afetou, a princípio, o número de jogadores empregados. De 2016 para 2017, houve aumento de 21,7 mil para 24,8 mil dos contratos definitivos de jogadores registrados na CBF. Mas ressalte-se que era também uma recuperação em relação à queda após 2015, quando o Brasil já teve 28 mil contratos. E lembre-se que o contrato foi em alguma parte do ano, não necessariamente o jogador ficou empregado toda a temporada.

''Vários clubes já viviam problemas, e vem a Lei do Profut e pode arrebentar eles. A morte dos clubes do interior pode afetar a produção de jogadores. É também uma consequência porque a Série C não tem receita, só custo'', contou o consultor Amir Somoggi, que atende clubes pequenos, médios e grandes. ''Agora o Brasil não tem mercado para 700 clubes. A competitividade aumenta e alguns vão ficar pelo caminho.''

De fato, não é que o mercado de futebol do Brasil diminuiu. As receitas dos principais clubes têm aumentado ano a ano, apesar das crises econômicas. Os valores de transferências também cresceram como mostram dados da CBF que apontam mais de R$ 1 bilhão em transações no ano passado. Só que o dinheiro fica mais concentrado em grandes clubes.

Há também fatores regionais para o surgimento e desaparecimento de times, como apontam dirigentes. O presidente da federação Goiana, André Pitta, lembrou que podem ter desaparecido mais clubes já que os 44 são saldo entre os que pararam e que foram criados. E explica parte do processo.

''Tem clube que existe no CNPJ, o cara tem uma pasta debaixo do braço. Tem outro que ressurge no período eleitoral quando os prefeitos querem investir para campanha. Tem outros que servem de cartório para empresário. Por isso, criamos uma terceira divisão em Goiás para o clube não entrar direito na Segunda'', contou ele, que tem visto um movimento sazonal de ida e vinda no Estado. ''Mas tem também os tradicionais, de cidades, que tentamos que se mantenham.''

Em Goiás, seis anos sem atividade leva à desfiliação. Pitta estuda fazer uma reunião para analisar quais não atendem esse quesito, já que tem em torno de 30 times que de fato estão ativos nas três divisões. E defendeu que a CBF crie uma regra mais dura de profissionalização para clubes, com critérios que tenham que ser seguidos para manutenção da equipe nesta condição.

A confederação criou sua primeira regra de licenciamento neste ano para clubes, mas são frouxas e atendem só as primeiras divisões. As normas do Profut só atendem os cerca de 130 clubes inscritos, sendo que 10% já foram excluídos por não cumprir. Essas regras mais duras têm evoluído, mas ainda não afetam os times pequenos. Outras normas, sim.

''Perdi dois clubes que não têm estádios para jogar porque não atendem as normas. Consegui aprovar com muito custo nove estádios. Estádios para 3 mil pessoas têm que ter regras de arena. Sem estádio, os clubes não podem jogar'', descreveu Evandro Carvalho, da Federação Pernambucana. ''É uma tendência (redução de clubes) normal do enrijecimento da legislação.''

Já o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Noveletto, disse que a crise econômica afetou todos os times. Em seu Estado, ele também vê um movimento de gangorra, com desaparecimento de clubes e surgimento de outros. ''A crise afeta a todos.''

Por fim, em São Paulo no Estado mais rico do país, houve uma leve queda no número de clubes com tendência a estabilidade. Contando times profissionais e base, foram 92 equipes disputando competições em 2017 contra 90 no ano anterior. Isso em um ambiente onde as regras já são mais duras para a filiação com a exigência de R$ 500 mil de aporte para ser filiado.

No geral, o futebol brasileiro está, sim, mudando de cara. Aumenta o profissionalismo no topo da pirâmide, e outros times não têm capacidade de se manter no jogo. ''Não é ruim ter um ajuste. Problema é ter um top down tipo desaparecer de uma hora para outra. Ideal era que fosse mais organizado'', analisou Somoggi.