Blog do Rodrigo Mattos

Ba-Vi escancara a era da intolerância no futebol brasileiro

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Não tem nem dez dias que Vinicius Jr provocou uma desavença (já resolvida) entre Flamengo e Botafogo por causa de uma comemoração provocativa de gol. Neste domingo, o Ba-Vi acabou em soco na cara após um festejo de tento com dança de mais um Vinícius, o do Bahia.

Conclusão: quem faz gol, festa ou piada no futebol brasileiro já corre o risco de apanhar. O resultado de uma era de intolerância que se instalou nos campos nacionais a ponto de qualquer fagulha se transformar em um incêndio. E por que? O que mudou em relação a um futebol que até a década de 90 sabia rir de si mesmo e no qual esse tipo de episódio era mais raro?

Primeiro, nem cabe muito discutir o mérito das provocações. Obviamente que um torcedor ou jogador que é zoado não vai gostar. Mas, no limite, se não houve racismo, preconceito ou ofensa pesada com xingamento, há direito à livre expressão no país, e à brincadeira.

Daí é preciso ter maturidade para entender que um dia você brinca e, no outro, brincam contigo. Como você aprende de criança no play. Se isso já tem que valer na arquibancada, imagine para jogadores profissionais. Mas o que mais falta no futebol nacional é maturidade. Vejamos o caso do Ba-Vi.

Vinícius faz o festejo provocativo e o goleiro Fernando Miguel imediatamente pega no seu cangote. O que queria ali? Poderia ter argumentado, reclamado que seja, meio inútil, mas direito dele. Agora a atitude já é agressiva. Em seguida, o zagueiro Kanu, do Vitória, dá dois socos na cara de Vinícius, mais dois outros atletas do rubro-negro deferem socos nele que está seguro pelo goleiro. Parece covardia  e é.

Após a briga, o técnico Vagner Mancini dá uma instrução a Ramon e, pouco depois, Bruno Bispo força a expulsão com um chute na bola. Em entrevista, Mancini diz não ter passado nenhuma orientação sobre o vermelho, provavelmente achando que todos somos tolos. Mais: culpa Vinícius por ter iniciado a confusão, sem nenhuma repreensão a seus jogadores que deram socos na cara do atleta do Bahia.

As duas cenas são reflexo de uma mesma moeda. Um futebol em que a vitória tem que ser obtida a qualquer custo, sem limite para artimanhas ou para a violência. E, se perder, põe a culpa no juiz, tenta parar o jogo, sai na mão ou vai para a Justiça Desportiva para tentar mudar o resultado independente do mérito da questão.

E a brincadeira? Essa é desnecessária e motivo da briga, como vi alguns comentaristas defenderem. Vale o argumento: ''Oh, eu te dei um soco na cara, mas foi você que me provocou.'' Ou, então, jogadores e clubes têm que pedir desculpa pela piada como queria a diretoria do Botafogo no meio da semana em relação ao Flamengo.

Por essa lógica, teríamos de fazer uma reunião com os principais clubes para revisar cem anos de provocações mútuas, e todos os dirigentes irão com uma lista imensa: ''Aquela do gol de barriga, foi mal viu'', ''E aquelas embaixadas do Capetinha, ele não teve intenção'', ''Aquela reboladinha do Edmundo foi uma reação de momento, releve''. E por aí vai.

É preciso lembrar que, na década de 90, havia violência na arquibancada, mas os jogadores levavam muito menos a sério as provocações dentro de campo. Sim, houve brigas como no Corinthians e Palmeiras (de Edilson). Mas, no geral, a provocação era aceita desde que não fosse para humilhar o que não foi o caso dessas duas recentes. Atletas como Túlio e Renato Gaúcho passavam a semana inteira tirando sarro e, na maioria dos casos, isso era tolerado.

Estamos transformando um futebol que era motivo de alegria em meio a um país violento em mais um sintoma da intolerância reinante por aqui. Já tinha começado com a torcida única, agora é a repressão às comemorações provocativas, no futuro, teremos bares separados para torcedores de times diferentes.

É preciso que CBF, federações estaduais e Justiça Desportiva prestem atenção a esses sinais e pensem que tipo de futebol querem no país. Por que se um jogador que provoca e outro que lhe dá um soco na cara merecem a mesma punição (o cartão vermelho) há algo de errado aí.