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Após Brasil-2014, Fifa cria regra contra elefantes brancos na Copa

rodrigomattos

04/04/2018 04h00

Após exigir estádios que se tornavam ociosos, a Fifa criou uma regra para impedir que países-sede usem arenas que vão se transformar em elefantes brancos após a Copa do Mundo. O exemplo mais recente foi do Brasil-2014 que produziu quatro estádios para o evento que hoje têm pouquíssima utilização, fora outros com problemas. Agora, um país-sede pode perder a chance de receber a Copa se seus planos indicarem arenas que futuramente estarão vazias.

Sempre foi prática da diretoria da Fifa exigir de países estádios dentro de seu alto padrão sem se importar como o que aconteceria depois. Foi assim na África do Sul-2010, no Brasil-2014 e ocorre o mesmo na Rússia-2018. Possivelmente, o Qatar-2022 terá arenas ociosas se não as desmontar.

Para a escolha da sede de 2026 – os candidatos são EUA/México/Canadá e Marrocos -, a federação internacional criou um critério técnico para a avaliação dos candidatos. As diretrizes das regras foram aprovadas pelo Conselho da Fifa em outubro de 2017. A divulgação de seus detalhes só aconteceu agora em março de 2018.

Pois bem, pelas regras, a infraestrutura conta 70% na avaliação, sendo 35% apenas relacionado a estádios. Cada projeto de estádio apresentado ganhará uma nota de 0 a 5, tendo de atingir a nota mínima de 2. Sem a nota mínima, será eliminado antes da votação na assembleia da Fifa. E um dos pontos mais relevantes é a possibilidade de subutilização da arena após o Mundial.

"Mais do que isso, a Fifa deseja evitar a ocorrência dos estádios "elefantes brancos" – referindo-se a projetos de estádios custosos (em termos de construção e manutenção) considerados desproporcionais para sua frequência e uso e valor de legado", explica o documento da Fifa.

Há uma fórmula para calcular a possibilidade de um estádio virar elefante branco. A Fifa contratou um estudo do instituto CIES que fez um levantamento na média de público em estádios europeus e fora da Europa. A pesquisa incluiu o Brasileiro da Série A, além de outros cinco campeonatos não europeus.

Com esse estudo, foi constatado que o tamanho da população de uma cidade tem relação com a média de público. Fora da Europa, um estádio só tem média de público de 19 mil se tiver mais de 5 milhões de pessoas na cidade. Cidades com até 1 milhão de habitantes têm arenas com média de público em torno de 10 mil pessoas.

Diante desses números, se o estádio for 50% maior do que a média de público prevista pelo estudo, a autoridade da arena tem que explicar como vai gerar público. E, sem justificativa plausível, a Fifa classificará aquele estádio como de alto risco para se tornar elefante branco e ele terá nota abaixo de 2, tendo grande chance de desclassificação.

Arena Amazônia, Arena Pantanal, Arena das Dunas e Mané Garrincha todos não passariam pelo novo critério da Fifa. Na realidade, mesmo estádios como Arena Pernambuco, Fonte Nova, Mineirão e Maracanã  também não atenderiam o critério, embora tivessem justificativas por conta de ter times importantes em suas sedes. Pelo novo critério da Fifa, um terço dos estádios da Copa-2014 seria provavelmente excluído da competição, não teria sido construído e não iria gerar o prejuízo para o Estado.

Na época, o então secretário-geral da Fifa Jérôme Valcke pressionou o Brasil a realizar rápido os estádios no padrão da Fifa, embora a decisão por mais sedes tenha sido do país. Valcke e o ex-presidente Joseph Blatter foram excluídos da entidade por receber pagamentos indevidos. Na eleição, ganhou Gianni Infantino, que criou as novas regras.

Agora, não há também obrigação de garantia do governo, nem de isenção total de impostos como fez o Brasil. Mas a Fifa recomenda que seja dado desconto nas taxas, o que vai melhorar a candidatura aos olhos dos eleitores da entidade. Na prática, um alto nível de perdão de impostos deve ocorrer, embora talvez não de forma absoluta.

Neste novo critério da Fifa, os EUA, México e Canadá levam enorme vantagem sobre Marrocos. Já têm estádios prontos (o que conta a favor) e têm atividade esportiva constante para suas arenas. Há reclamações do país africano de ter sido prejudicado com as regras, segundo o site "Inside World Football".

Fato é que, no novo processo, o Brasil teria de passar por um escrutínio técnico para ter sua candidatura referendada, mesmo sendo única. Em 2007, a CBF apresentou uma candidatura com dados errados, incompletos e com projeções completamente equivocadas (todos os estádios teriam investimento privado e seria gasto pouco mais de US$ 1 bilhão nas construções). Mesmo assim, a Fifa aprovou sem questionar, com elogios.

 

 

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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