Blog do Rodrigo Mattos

Como regras financeiras para supertimes europeus servem de lição ao Brasil

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Os clubes brasileiros passarão pela primeira fiscalização por um órgão independente de suas contas neste 2018 com a atuação do governo federal relacionada à Lei Profut. O ideal é que ocorresse também uma fiscalização por órgão esportivo, mas a CBF ainda engatinha neste ponto. Neste cenário, os resultados do fair play feito pela Uefa indicam quais podem ser as lições tiradas pelo país em relação a esse tipo de regulação.

Primeiro, é importante que se diga a grande diferença de modelos. Por aqui, as regras se limitam à aplicação da lei e a possível punição é ser excluído do parcelamento das dívidas fiscais. A CBF adiou a implantação do fair play e só vai analisar balanços em 2018. Por lá, as punições podem ser exclusão dos campeonatos e envolvem um monitoramento constante das contas dos clubes.

Dito isso, podemos olhar para o relatório da Uefa sobre a aplicação do fair play para entender em que esse tipo de procedimento ajudou e em que não funcionou na Europa. Divulgado em abril, o documento trata das últimas duas temporadas, sendo que o sistema existe no continente desde 2011.

São em torno de 230 clubes fiscalizados pela entidade. A investigação procura dívidas vencidas e não pagas a jogadores e por transferências, deficits acima do limite previsto, injeção de dinheiro no clube sem relacionamento com o fim esportivo (patrocinador fake), contas com irregularidades na contabilização, etc.

Constatado um problema, a Uefa procura o clube e propõe um acordo para exigir um plano para cumprimento de metas. Não são apenas clubes inexpressivos que são atingidos. O relatório da entidade europeia aponta que houve auditorias em times como Arsenal, Manchester City, PSG, Internazionale, Lazio, Ajax, Porto, entre outros.

O PSG e o City, por exemplo, tiveram de fazer acordos para ajustar suas contas e tiveram restrições de investimento durante um período, que já acabou. Houve punições mais duras para o Fenerbahçe e o Porto que tiveram limitação de elenco inscrito na Liga dos Campeões e altas multas. Entre os que ficaram fora de competições europeias, o mais conhecido é o Galatasaray.

Em seu relatório, a Uefa aponta que a maioria dos clubes monitorados ou auditados tiveram melhoria em suas contas, com transformação do deficit em lucro ou em prejuízo reduzido. No geral, a entidade aponta que a dívidas de todos os clubes europeus caiu percentualmente quase pela metade em relação às receitas após cinco anos de implantação do sistema.

Então, a regulação criou, sim, maior responsabilidade na gestão dos clubes, algo tão necessário aqui no Brasil. Mas, em outro ponto, o sistema de regulação financeira da Uefa não foi capaz de atuar: dar maior equilíbrio a suas competições impondo limites aos gastos extraordinários dos superclubes.

Por exemplo, PSG e City, que são fortes graças ao capital vindo de países árabes, tiveram de fazer ajustes, mas continuaram a gastar os tubos com contratações acima do que lhes seria possível só com recursos do futebol. O PSG é de novo investigado pela Uefa pela transferência de Neymar, sendo que comprou os dois jogadores mais caros do mundo na sequência.

O City tem o elenco mais caro da Europa, segundo avaliação do CIES, centro de estudos europeu. Não seria problema se o City fosse, de fato, o clube que mais gera receita no continente. Não é. Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique e Manchester United estão na sua frente.

A Uefa reconhece ter limitações em suas regulações para buscar maior equilíbrio em campo. Só pode limitar elencos e fiscalizar se não há investimentos externos impróprios pelas regras, embora nem isso pareça estar fazendo efeito sobre o dinheiro árabe por exemplo. Mas não tem como impedir que o poder econômico dê uma vantagem insuperável aos gigantes.

Como lição, o Brasil pode aprender que os sistemas de regulação financeira podem ser capazes de criar mais credibilidade nas gestões de clubes. Assim, pode evitar, por exemplo, as enxurradas de processos na Fifa contra clubes brasileiras por dívidas em transferências. Isso tornará os times mais fortes no geral e é o primeiro passo importante.

Mas, para manter o equilíbrio que vemos no futebol nacional atual, serão necessários outros tipos de mecanismos. Ou fatalmente o Brasil também caminhará para ter certos clubes nacionais que se distanciem muito dos outros. Não se está pregando que sejam todos iguais, mas a diferença financeira não pode ser tão grande a ponto de termos um Brasileiro em que apenas poucas equipes possam ganhar de fato.