Blog do Rodrigo Mattos

Como Brasil, Rússia tem dificuldades para lidar com memórias da repressão

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No dia 7 de julho, o pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro, líder das pesquisas atualmente, declarou que lamentava a morte do jornalista Vladimir Herzog deixando como indefinida a causa do fato: ''Suicídio acontece''. Há evidências de que Herzog foi torturado e asssassinado nas dependências do DOI-CODI em 1975. A Comissão de Desaparecidos Políticos do governo já reconhceu o fato e em seu atestado de óbito consta a informação do homicídio.

Em 27 de junho, o ativista russo Yury Dmitriyev, que trabalha na recuperação da história da repressão no país, foi preso por acusações de pedofilia relacionadas a sua filha adotiva. Ativistas de direitos humanos têm certeza de que as acusações são falsas e a detenção, na verdade, é política. Dmitriyev é o membro mais destacado da ONG Memorial que trata da recuperação das memórias dos assassinatos pelo Estado na era comunista, especialmente sob Stálin.

Os dois fatos mostram um traço em comum entre Brasil e Rússia no tratamento de suas histórias: ambos têm dificuldades de lidar com memórias de seus períodos repressivos em que cidadãos foram mortos pelo Estado. No caso brasileiro, trata-se da ditadura militar que se estendeu pelas décadas de 60 a 80. No caso russo, trata-se da era soviética, ou ditadura do proletariado, que durou a maior parte do século passado, igualmente anti-democrática por não ter eleição para chefe de estado e por praticar repressão forte contra opositores.

No Brasil, houve o fortalecimento de um movimento pedindo intervenção militar nos últimos anos. A justificativa dos defensores da ideia é a corrupção em larga escala no país. Argumentam que militares poderiam limpar o cenário.

Ao mesmo tempo, esse movimento nega fatos ocorridos na ditadura como a morte de centenas de opositores nos porões da didatura, alguns torturados, assim como foi o caso de Herzog. Uma revelação recente de documento da CIA de que o ex-presidente Ernesto Geisel autorizara os assassinatos foi minimizada ou tratada como mentira por círculos militares.

Na Rússia, há um movimento similar. Uma pesquisa recente apontou Stálin como a personalidade de maior destaque da história russa. O presidente Vladimir Putin já acusou o Ocidente de demonização em excesso de Stálin.

No período dos expurgos, nas décadas de 30, Stálin matou em torno de dois terços da cúpula soviética para evitar qualquer ameça ao seu poder. Os assassinatos se estenderam a milhares de pessoas na população russa, na maioria dos casos com a justificativa de traição ao regime comunista. Ressalte-se que o governo de Stálin matou um número bem maior do que a diretoria militar brasileira.

A partir do final da década de 80, o grupo Memorial começou a resgatar a memória desses assassinatos. Um historiador chamado Dima Yurasov, atuando sem avisar o governo comunista, chegou a juntar 200 mil fichas de mortos pelo governo Stálin, compilando dados do próprio governo.

Preso atualmente, Dmitrieyev é responsável por descobrir 9.500 túmulos de corpos de pessoas mortas pelo regime em Karelia, sua cidade natal. Atualmente, o trabalho da Memorial está sob forte pressão do governo Putin, que têm leis específicas que podem reprimir a atuações de ONGs como esta.

No Brasil, o grupo ''Tortura Nunca Mais'' faz trabalho similar no Brasil, assim como houve a Comissão de Desaparecidos Políticos do governo. Não, nunca foram reprimidos. Mas os resultados dos seus trabalhos, apesar de fartamente documentados, são constantemente colocados em questionamento por correntes de direita.

A necessidade de reconstruir a memória resulta do controle feito pelos governos repressores em ambos os países em relação a história do que aconteceu de fato. Historiadores oficiais russos na época soviética só construíam versões fantasiosas que negavam as atrocidades cometidas por Stálin. Houve um período de descompreesão, em que se admitiram os erros, seguidos por outras épocas de maior repressão. Só a partir da década de 80 que essa história começou a ser reconstruída de fato.

O ensino de história no Brasil durante a período da ditadura foi quase aniquilado, transformado em Estudos Sociais. É o que conta o livro ''Os anos da didatura militar – capítulos sobre o ensino de história no Brasil'', das professoras Maria Auxiliadora Schmidt e Kátia Abud. Não havia permissão de tratar das questões sobre a repressão, assim como havia censura aos jornais.

Isso significa que, em ambos os casos, boa parte da população não teve acesso às informações, de fato, do que ocorreu durante os regimes repressivos. O Brasil, por exemplo, teve de 20 a 25 anos de período em que não aprendia sobre a própria história. A Rússia estende esse tempo por uma época muito mais prolongada. Por isso, certas fatias dos povos dos dois países simplesmente não têm noção do que ocorreu. E repassaram isso a filhos, e netos. Isso explica a defesa e exaltação de regimes repressivos e negação de fatos ocorridos no período.

Ao explicar seu trabalho, Dmitriyev disse: ''Eu não luto contra o sistema porque isso não levaria a lugar nenhum. Eu luto pela memória. Eu luto para que qualquer um que queira saber o que ocorreu com seus parentes, independentemente de que o governo queira isso ou não. Essas pessoas existiram em algum momento. Eles trabalharam e amaram e tiveram filhos. Eu estou pela proteção da liberdade da vida privada e dessas memórias.''