Blog do Rodrigo Mattos

CBF ignora ‘cliente’ do futebol ao contribuir para piorar nível do futebol

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Quarta-feira, Grêmio e Flamengo realizam um jogo intenso do início ao final, com qualidade de troca de passes, individual e de marcação dos dois times. A partida teve placar definido aos 48min com gol de empate rubro-negro. Um jogo para elevar as avaliações sobre até onde podem ir o futebol do país.

Sábado, Grêmio e Flamengo voltaram a se enfrentar com o time gaúcho vencendo o duelo por 2 a 0, mas escalando reservas para poupar para a Libertadores. Na ponta do campeonato, os rubro-negros tiveram quase todo seu time principal (somente a dupla de zaga e o meia Diego foram poupados), mas não chegaram nem perto da intensidade da partida do mata-mata, rodando a bola inultilmente como um time enfadado.

As duas realidades distintas em duas partidas com os mesmos times são reveladoras do cenário do futebol brasileiro. Um calendário em que as partidas dos principais campeonatos são espremidas em maratonas insanas que impedem que os clubes nacionais se apresentem na sua melhor forma em todas as ocasiões. Escalar times no Brasil para os técnicos é a arte do possível.

Para a temporada de 2019, pouca coisa vai mudar como já demonstram os planos iniciais da CBF. De novo, um Brasileiro rachado pela Copa América e espremido com rodadas de meio de semana, Libertadores e Copa do Brasil encavalados, enquanto os inúteis Estaduais se estendem por três ou quatro meses do ano.

Quando discutimos o abismo que existe entre o futebol brasileiro e o europeu, costumamos nos ater à diferença entre as mega estrelas de lá com as nossas misturas de veteranos com garotos. A balança é, de fato, cruel conosco.

Mas, recentemente, clubes como Flamengo, Palmeiras e Grêmio têm melhorado suas gestões e portanto têm conseguido reter por um pouco mais tempo alguns jogadores, além de repatriar outros de bom nível. Veja que tanto gremistas quanto palmeirenses recusaram propostas por jogadores-chaves. Quando saem, jogadores brasileiros têm sido mais caros do que anteriormente, como mostra a arrecadação recorde do mês de julho. Há, sim, sinais de um mercado mais forte.

A questão é que não adianta melhorar o nível dos jogadores que entram em campo se não lhes é dada uma condição similar à europeia fora dele, com um calendário mais racional, gramados com qualidade melhor, arbitragens de nível mais compatível com o profissionalismo (o VAR chegou aqui com atraso e só na Copa do Brasil).

Neste caso, a culpa é da CBF, mas é também dos clubes. Seria papel deles, de preferência, criar uma entidade para cuidar exclusivamente do seu produto por meio de liga. Na impossibilidade de isso acontecer, pela resistência política da CBF, cabe aos clubes se reunirem e deixarem clara sua contrariedade com o modelo atual.

Sim, há clubes como os paulistas que têm mais vantagem com o Estadual pelas cotas maiores. Essa, no entanto, é uma visão de curto prazo. Um jogo nobre do Brasileiro em final de semana estendido por dez meses e bem trabalhado como produto terá uma valorização suficiente para compensar as perdas com os regionais.

No final das contas, se a pergunta for feita ao cliente final que é o torcedor, dificilmente haverá quem defenda o modelo atual. Será que aquele que está em casa ou no estádio prefere ver um jogo intenso de titulares de bom nível em disputa em estádio cheio ou mistões dos dois lados com a arquibancada meia-boca?