Blog do Rodrigo Mattos

Como a final da Libertadores foi parar fora da América do Sul em Madri

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A primeira decisão da Libertadores fora do continente sul-americano, de uma certa forma, vem sendo desenhada desde o final de 2016 quando a Conmebol contratou uma consultoria internacional para reformular a competição. Desde então, a entidade conduz a competição para se inspirar na Liga dos Campeões. Até que, por conta de um episódio de violência, a confederação vai levar de fato o jogo decisivo para uma sede de jogo final europeu: o Santiago Bernabéu, em Madri, no dia 9 de dezembro.

Ao assumir a Conmebol, após escândalo de corrupção na entidade, o novo presidente, Alejandro Dominguez, decidiu que teria de reformular a Libertadores. Contratou a mesma consultoria que atuava na Liga dos Campeões. Aumentou o número de times do Brasil, fez a competição se estender pela temporada inteira e promoveu concorrências para os contratos de direitos de televisão (o que quase triplicou o valor para 2019).

Em paralelo, havia o plano de reduzir os episódios de violência em estádios. Mas o tribunal disciplinar da Conmebol continuou a impor penas pequenas para incidentes com torcida. A única sanção mais dura foi na final da Sul-Americana, quando a torcida do Flamengo promoveu o caos no Maracanã e o clube foi punido com dois jogos de portões fechados.

Com a falta de punição e a cultura agressiva da torcida sul-americana, o segundo jogo da final de 2018 teve agressões da torcida do River Plate contra jogadores do Boca Juniors, repetindo episódio de violência de 2015 na Bombonera, de maneira de inversa. A diretoria da Conmebol, de início, queria manter a realização do jogo. Adiou, tentou forçar o Boca a jogar, mas capitulou e aceitou o adiamento.

Até segunda-feira, a ideia da Conmebol era manter o jogo no Monumental de Nuñez e permitir ao River atuar como mandante, dando igualdade em relação ao Boca. Mas o time de Carlos Tévez não topava voltar ao estádio, além de ter levado o caso para os tribunais.

Restava à confederação sul-americana achar outro lugar para realizar o jogo e aceitar que não havia condições de segurança em Buenos Aires. Aí, o aspecto comercial contou. Havia duas opções Miami, sede da Fox Sports que transmite a Libertadores, e Doha, sede da Qatar Airways que patrocina a competição. Assunção era o primo pobre na lista, uma alternativa se não houvesse vantagem financeira.

O jogo no Oriente Médio, no entanto, tinha problemas logísticos por ser complicado o deslocamento de um mínimo de torcedores argentinos. Então surgiram as candidaturas de duas cidades europeias, Paris e Madri, com o aval do presidente da Fifa, Gianni Infantino. A primeira era defendida pela Qatar Airways pela sua ligação com o Paris Saint-Germain, que é controlada por fundações do governo qatariano.

A segunda era opção da Conmebol pelo melhor acesso da América do Sul e pela colônia argentina. Além disso, houve um acerto com o presidente do Real Madri, Florentino Perez, e aval do governo espanhol para a questão da segurança. Desta forma, a final da Libertadores foi deslocada para o Santiago Bernabéu, exatamente na mesma cidade onde se decidirá a Liga dos Campeões no próximo ano.