Blog do Rodrigo Mattos

Internacional dá lição de democracia ao Flamengo

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Ocorridas no mesmo dia, neste sábado, as eleições de Flamengo e Internacional mostraram como o clube gaúcho avançou na ampliação da democracia enquanto o carioca segue com pleito pouco representativo para o tamanho de sua torcida. Essa constatação nada tem a ver com quem ganhou ou perdeu, já que os resultados foram absolutamente legítimos. Trata-se de discutir o tamanho do colégio eleitoral -não só dos dois clubes- e a forma como se deu o processo nas duas agremiações.

Por estatuto, o Internacional abre voto para seu sócio contribuinte e torcedor. Assim, o colégio eleitoral do clube tem um total de 64 mil aptos a votar. Embora a participação ainda seja minoritária, 16.259 participaram da eleição que reelegeu o presidente colorado, Marcelo Medeiros, neste sábado.

De qualquer maneira, abre-se a possibilidade real de participação daquele associado que ajuda o clube e não tem título de proprietário. Não é parte de um pequeno clube privilegiados que decide. Até a distância foi superada com a admissão do voto por internet e por aplicativo, este último implantado nesta eleição.

É certo que ainda há o que se aprimorar. A necessidade de as chapas só passarem ao segundo turno após votação no Conselho Deliberativo é discutível porque cláusulas de barreira sempre inibem renovação. Entende-se o procedimento porque há temor nos clubes de que, com a votação ampla para sócio contribuinte, alguém com interesse fisiológico possa tentar comprar uma eleição.

Enquanto isso, o Flamengo teve pouco mais de 8 mil sócios aptos para votar, a maioria deles proprietários, nenhum sócio-torcedor. Isso em um clube que tem cerca de 100 mil sócios-torcedores. Quem decidiu o futuro do clube foram apenas 3.048 mil eleitores. Foi eleito o novo presidente Rodolfo Landim por maioria considerável, 1879 votos.

É bem possível que sua eleição tivesse se confirmado também com colégio eleitoral mais amplo porque havia uma insatisfação pela falta de títulos com a situação. Independentemente da análise da gestão de Eduardo Bandeira de Melo, o fato de existir alternância de poder costuma ser saudável. Mas isso não altera a realidade de que um maior número de rubro-negros deveria poder influenciar no destino do clube.

Há quem defenda dentro do Flamengo a ampliação do colégio eleitoral para incluir sócios-torcedores com alguns anos de contribuição. Uma corrente do clube queria que associados com cinco anos de contribuição na categoria máxima de torcedor pudessem votar. Mas o Conselho Deliberativo rubro-negro até o momento tem se mostrado resistente a seguir nesta direção.

A título de comparação, pela última pesquisa Datafolha de torcidas, de 2018, o Flamengo tem 18% da torcida nacional, enquanto o Internacional tem 3%. Ou seja, por esses dados, a agremiação carioca tem uma torcida seis vezes maior do que a colorada. Em compensação, o colégio eleitoral do time rubro-negro é oito vezes menor do que do clube gaúcho. É óbvio que há uma desproporção aí e falta representatividade na eleição rubro-negra.

Em termos nacionais, clubes como Internacional, Grêmio e Bahia são aqueles que avançaram para ter processos mais democráticos de eleição ao incluir alguma categoria de sócio contribuinte ou torcedor no pleito. No meio do caminho, há agremiações onde há processos democráticos com sócios e um colégio eleitoral restrito. São a maioria como Flamengo, Fluminense, Botafogo, Santos, Corinthians e Palmeiras.

Por último, há clubes que são menos democráticos porque mantêm eleições de presidentes realizadas por meio do Conselho Deliberativo, isto é, de forma indireta. São os casos do São Paulo, Atlético-MG, Cruzeiro e Vasco.

Em geral, como acontece em governos, onde há mais democracia nos clubes, há maior transparência e maior possibilidade de escrutínio por parte do eleitor/torcedor. Como consequência, os gestores vão pensar melhor em como agir para fortalecer a instituição ou correm o risco de perder o poder.