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Luta de Bota, Cruzeiro e Flu contra Série B é pela sobrevivência financeira

rodrigomattos

10/11/2019 04h00

Não é a primeira vez, nem será a última que clubes grandes lutam no Brasileiro contra o rebaixamento para Série B. A maioria deles já caiu de divisão em algum momento. Mas a briga deste ano de Botafogo, Cruzeiro e Fluminense vai além de uma queda para Segundona: é uma luta pela sobrevivência financeira.

Por que? Os três clubes enfrentam graves crises financeiras, com salários atrasados e dívidas crescentes. E, a partir de 2020, as agremiações deixam de ter direito a uma salvaguarda da televisão. Isto é, não terão as cotas como se estivessem jogando a Série A. A receita de televisão é a principal desses três clubes.

Pelas novas regras, os clubes poderão escolher entre receber a sua cota de Série B, que é de R$ 6 milhões, mais dinheiro para despesas de viagens, ou manter o valor do seu Pay-per-view. Será mais vantajoso ficar com o dinheiro do ppv que, em 2019, será de R$ 23 milhões para o Botafogo, R$ 25 milhões para o Fluminense e R$ 41 milhões para o Cruzeiro, de acordo com a fatias das torcidas. Mas esse dinheiro não cobre as perdas dos pacotes de TV Aberta e Fechada.

Ora, se um desses três clubes cair de fato, como chegaria para enfrentar esse cenário de perda de receita? Analisemos caso a caso.

O Fluminense é o clube no qual podemos ter um quadro mais claro por publicar periodicamente seus balancetes. Até setembro de 2019, o clube tinha uma receita em torno de R$ 174 milhões, e as vendas de jogadores foram a principal fonte neste período (R$ 67 milhões). Mas há uma ressalva: os valores das premiações do Brasileiro e de cotas de ppv ainda não entraram. Com esses, a TV deve superar as vendas além de ser uma fonte mais garantida.

O clube operou em leve déficit de R$ 4,9 milhões, embora já tenha reduzido despesas do futebol. A questão é que uma dívida líquida acima de R$ 600 milhões pesa sobre o clube. Ou seja, compromete parte da receita. No caso de um rebaixamento, o prejuízo poderia chegar a R$ 61 milhões e o clube se tornaria ainda mais dependente de vendas de atletas para voltar à Série A.

O Cruzeiro tem como maior problema os gastos em patamares próximos de Flamengo e Palmeiras em 2018 (em termos de salários) sem ter receitas suficientes para isso. E sofre com um quadro que inclui dívidas que ameaçam o futuro esportivo na Fifa. Há pelo menos quatro ações já com condenações que preveem proibição de contratações a perda de pontos, mas que estão em fase de recurso. O Estudo do Itaú/BBA apontou um "descontrole absurdo nas contas" do time mineiro.

Além disso, houve antecipações de receitas da Globo no valor de R$ 70 milhões, o que compromete recebimentos atuais. Ou seja, caso se mantenha na Série A, o Cruzeiro já teria de reduzir o valor de investimento de forma drástica e fazer cortes no elenco. Caso ocorra uma queda, e com dívidas urgentes para pagar, o clube deve enfrentar uma asfixia financeira.

O caso do Botafogo é, talvez, o mais grave dos três. O clube tem um projeto de transformação em clube-empresa com saneamento de dívidas que tem como prazo limite a virada do ano para se viabilizar. Mas, sem isso, o cenário é de um débito total cima de R$ 700 milhões, o maior do país, com receitas limitadas ao patamar de R$ 200 milhões.

A conta não fecha e é por isso que o clube atrasa salários mesmo tendo gastos no futebol bem abaixo de rivais. Dados internos alvinegros apontam que tem uma das cinco menores folhas salariais da Série A. O projeto de clube-empresa depende de recursos de investidores e da sua estruturação final. Mantido em caso de rebaixamento, teria muito mais dificuldades para quitar a dívida.

Afinal, o investidores colocarão recursos para pagar débitos para que a empresa receba os ativos (recursos de TV, marketing, bilheteria) e banque o futebol. Com esses ativos reduzidos, haverá menos dinheiro para investir no futebol, menos geração de receita e vai demorar mais para remunerar o investimento daqueles que botarem dinheiro no clube.

"Ah, mas Fortaleza e Ceará também sofrerão bastante se forem rebaixados" Verdade, só que esses clubes já têm despesas mais baixas, dívidas menos significativas, isto é, uma casa mais arrumada. E estão adaptados ao processo de ajustar seus orçamentos em caso de rebaixamento. Em resumo, nos casos de Botafogo, Fluminense e Cruzeiro, o rebaixamento significará uma tragédia financeira da qual o clube levaria anos para se se recuperar. Isso se conseguir se recuperar.

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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