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Rebaixamento do Cruzeiro é punição à imoralidade de seus dirigentes

rodrigomattos

09/12/2019 04h00

O rebaixamento do Cruzeiro para a Série B é consequência principalmente de uma série de erros da administração do Cruzeiro. O clube baseou sua gestão em gastar um dinheiro que não tinha desde pelo menos 2015 o que gerou um buraco nas finanças. Ganhou títulos, mas a conta chegou.

Tentemos contar essa história cruzeirense desde o início. O clube conquistou um bicampeonato em 2013/2014 e, sim, vendeu parte do elenco, mas decidiu seguir investindo sem ter dinheiro para isso. O uruguaio Arrascaeta, nunca plenamente pago, é um exemplo. O ex-presidente Gilvan Pinho Tavares, portanto, deixou problemas sérios nas contas.

E aí veio a gestão de Wagner Pires de Sá e seu sancho pança Itair Machado. Pois bem, com o clube em dificuldades, decidiram contratar o centroavante mais caro do país, Fred, com o risco de ter de pagar R$ 10 milhões ao rival. Era só o primeiro passo. Nenhuma dívida anterior era paga enquanto corriam processos na Fifa, salários milionários foram dados a dirigentes como Itair, comissões a empresários amigos surgiam em operações peculiares, e pagamentos a conselheiros aliados.

O Cruzeiro tinha uma das maiores folhas salariais do Brasil no patamar de Flamengo e Palmeiras sem ter receita para isso. Publicamente, seus dirigentes vendiam um discurso mentiroso de que a dívida caía como chegou a afirmar Itair, e que Wagner Pires de Sá era economista e portanto sabia o que estava sabendo, ou que chegaria um patrocínio milionário. Uma mentira atrás da outra. Os números os contradiziam, mas eram poucos da imprensa que olhavam os dados e apontavam a falácia. A maioria ficava ali com medo de contradizer o cartola, traço de parte da nossa imprensa subserviente ao poder.

Ora, a conta sempre chega, era uma questão de tempo. E isso ocorreu no início deste ano quando venderam Arrascaeta ao Flamengo e enfiaram no balanço do ano anterior para maquia-lo. Mas não foi suficiente como alerta o que só ocorreu quando o time começou a atrasar salários e a vender jogadores por preços baixos. E nada de quitar as dívidas na Fifa.

Os erros administrativos viraram escândalo quando foram para o "Fantástico" nas mãos dos repórteres Gabriela Moreira e Rodrigo Capelo. E depois chegaram à Polícia Federal e viraram batidas policiais no clube. A diretoria seguia tentando disfarçar a situação, assim como jogadores como Thiago Neves que faziam declarações de apoio a Itair Machado.

A crise financeira virou técnica. Com a diretoria com situação insustentável, o Cruzeiro tirou o sofá da sala ao encostar Wagner Pires por um intervenção de Zezé Perrela. O político e cartola era presidente do Conselho, apoiou a diretoria e depois se omitiu diante de suas barbaridades. Miraculosamente, virou solução como se nenhuma relação tivesse com a irresponsabilidade anterior. O clube seguia negando seus erros.

Há crises morais que invadem o campo da mesma forma que a torcida organizada do Cruzeiro invadiu o CT – torcida esta que também teve elementos que receberam dinheiro do clube. Nem Mano, nem Rogério Ceni em seu rasgo de lucidez, nem Abel Braga, nem muito menos Adilson foram capazes de organizar um caos que estava além deles.

O Cruzeiro ficou os últimos nove jogos do Brasileiro sem vencer, perdeu as cinco últimas partidas. Quem olha esse tipo de resultado pensa em um time esportivamente fracassado. Isso seria um problema que poderia ser resolvido de um ano para o outro. A questão do time celeste é que fracassou como instituição, moralmente, financeiramente até que isto tenha chegado ao campo. Para completar, ainda perdeu a cabeça como se viu pelas reações violentas dos torcedores após a queda se tornar um pesadelo palpável.

Pior, após o rebaixamento, Zezé Perrela diz que pretende ficar, Adilson fala em título Mundial daqui a alguns anos. Não parecem ter entendido nada do que aconteceu com o clube. É preciso descer ao mundo real, a falência onde o Cruzeiro se meteu é de tal tamanho que é preciso quase uma refundação. Tirar de lá todos os que participaram desse descalabro e reestruturar o clube do zero. Qualquer coisa diferente disso será prolongar a decadência por um período maior.

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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