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Por que o Liverpool ganha e gasta o quádruplo o Flamengo

rodrigomattos

20/12/2019 04h00

Rivais na disputa da final do Mundial de clubes, Liverpool e Flamengo entrarão em campo com uma diferença de elenco que é fruto da distância financeira entre os dois clubes. O clube inglês tem uma receita que representa o quádruplo da obtida pelo time carioca. Para além do óbvio câmbio mais forte da libra sobre o real, como se explica esse abismo econômico que torna desequilibrado o confronto em casa?

Primeiro, vamos aos números. O balanço mais recente do Liverpool mostra um total de receita de R$ 2,4 bilhões na temporada encerrada no meio de 2018, valor este que excluí as vendas de jogadores, ou seja, composto apenas por receitas recorrentes. O Flamengo prevê fechar o ano de 2019 com uma receita pouco superior a R$ 900 milhões, mas, excluídas as negociações de atletas, esse número cai para em torno de R$ 600 milhões.

Pois bem, e como os dois clubes ganham dinheiro? Ambos têm como principais rendas a venda de direitos de televisão, mais premiações de Champions League e Libertadores. No caso rubro-negro, isso representa 53% da sua renda, enquanto a fatia para o time de Liverpool é de 48%. Só que a renda do clube inglês é 3,5 vezes maior do que a rubro-negra neste item.

Por que? A Premier League é o campeonato nacional com maior negociação de direitos para o exterior, além de ser a que mais recebe internamente. O Brasileiro sequer teve seus direitos internacionais vendidos na atual temporada de 2019, e isso ensaia-se se repetir para o próximo ano. O campeonato inglês é negociado pelo quíntuplo da Série A, sendo que um terço do valor é em direitos para o exterior. Ou seja, gera mais de R$ 3 bilhões em um ativo pelo qual os clubes brasileiros não ganham nada.

"É possível verificar que existe um "limitador de crescimento de receita" para o Campeonato Brasileiro derivado principalmente da (i) baixa renda média dos torcedores e (ii) pouco acesso ao mercado internacional. No gráfico é possível verificar que no Brasil são necessários muitos torcedores para gerar o atual patamar de receita", diz o relatório de impacto do futebol brasileiro, estudo feito pela consultoria EY a pedido da CBF.

A comparação entre a Libertadores e a Champions League é outra covardia. Um campeão europeu ganha mais do que o triplo do vencedor da competição sul-americana, fora receitas por mercado que não são distribuída pela Conmebol e são pela UEFA. Neste caso, clubes ingleses são os mais favorecidos, assim como seriam os brasileiros aqui na América do Sul.

A questão da renda per capita do brasileiro pesa especialmente na questão da renda com jogos. O Flamengo estima arrecadar R$ 162 milhões com bilheteria e sócio-torcedor em 2019, um recorde para o clube. A receita de match day do Liverpool tem até participação menor no total ganho pelo clube, mas, ainda assim, atinge 80 milhões de libras (R$ 423 milhões). Ambos tiveram anos cheios de jogos decisivos. O time carioca ainda tem margem para crescimento, mas limitado porque não pode aumentar consideravelmente o preço do ingresso pelo poder de compra do torcedor.

No geral, o Brasileiro tem uma taxa de ocupação bem menor do que a Premier League, com 48,6% contra 93,44%. Mas o Flamengo é exceção neste cenário com o Maracanã praticamente cheio o ano inteiro.

E talvez a maior diferença de mercado seja o patrocínio. Com uma economia fraca, o Brasil, em geral, teve queda de receita com publicidade. Não por acaso o Flamengo fechará com receita de R$ 97 milhões neste item, contra R$ 814 milhões do Liverpool. É uma questão, de novo, do tamanho do mercado que cada clube um atinge. Há um ponto: o clube rubro-negro explora mal o licenciamento de seus produtos o que europeus fazem de forma mais eficiente.

Ao falarmos das receitas extras de jogadores, as quais os clubes brasileiros tanto dependem, a diferença é bem menor. Mas há uma ressalva importante, o Flamengo teve o maior ano de vendas de atletas de sua história com R$ 298 milhões até agora em 2019. Ainda assim, menos do que os R$ 550 milhões obtidos pelo clube inglês em sua última temporada.

E isso se reflete também no investimento de cada time em direitos federativos. Enquanto o Liverpool investiu R$ 814 milhões em contratações só na última temporada, o Flamengo, em um número recorde, fechará em R$ 215 milhões neste ano, considerado só a aquisição de atletas.

Como resultado dessa discrepância de valores arrecadados, os gastos com salários dos dois clubes têm uma distância considerável. O Liverpool declara ter como despesas com salários R$ 1,2 bilhão, contra R$ 281 milhões do Flamengo. Ou seja, um tem a folha salarial que representa aproximadamente um quarto da do outro, exatamente a diferença de receita.

Ambos os clubes são bem geridos e, com ressalvas em alguns pontos, atingem boa parte do potencial de receita – o Flamengo ainda pode crescer em alguns pontos. Dito isso, o tamanho do mercado e a forma como é gerido o futebol em cada país deixam o Liverpool quatro vezes maior do que o time rubro-negro em potencial de formar um grande time.

 

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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