Blog do Rodrigo Mattos

Arquivo : São Januário

Punição ao Vasco indica STJD mais brando contra violência
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O STJD determinou uma perda de seis mandos de campo para o Vasco pela confusão no jogo contra o Flamengo, em que houve briga em toda a arquibancada, bombas e ameaça a jornalistas. Outros conflitos generalizados em jogos do Brasileiro provocaram penas bem mais duras do tribunal no passado.

O julgamento do caso vascaíno durou quase quatro horas, sendo que mais de uma hora foi exclusivamente para exibir cenas do confronto. Foi possível ver a briga iniciada pela torcida na arquibancada do Vasco, a tentativa de invasão do campo, o arremesso de bombas, a reação da PM com gás lacrimogêneo que atingiu o público, a saída de jogadores do Flamengo debaixo de ataque e as depredações do estádio.

Na 1ª comissão do STJD, o relator do caso Gustavo Pinheiro votou por apenas quatro jogos sem torcedores na arquibancada e permissão de vascaínos na social de São Januário. Ex-diretor jurídico vascaíno, na gestão de Roberto Dinamite até 2014, ele culpou praticamente só a PM pela confusão, acolhendo tese da defesa do clube. “O agravamento do caso se deu por causa da polícia”, explicou.

A auditora Michele Ramalho não concordou porque entendeu que é inadmissível uma torcida jogar bomba. Deu perda de seis mandos de campo. O presidente da comissão Lucas Rocha concordou e analisou: “É difícil verificar algo mais grave a não ser que fosse uma batalha campal.” Mas, após falar em oito perdas de mando, recuou para o número de seis jogos. A sanção pedida pela procuradoria era até 25.

Para efeito de comparação, em 2013, o próprio Vasco perdeu mando de oito jogos na primeira instância pela briga generalizada diante do Atlético-PR, punição que caiu para seis no pleno do STJD, tradicionalmente mais brando. Mandante daquele jogo, o Atlético-PR pegou gancho de 12 jogos que caiu para nove no segundo julgamento. Em ambos os casos, ainda havia partidas com portões fechados. Aquela briga atingiu toda a arquibancada, mas não os jogadores.

Naquele mesmo ano, o conflito entre vascaínos e corintianos no Mané Garrincha gerou quatro perdas de mando para cada um dos clubes. Foi uma briga de grandes proporções, mas sem bombas ou arremessos no campo. Em 2010, o Coritiba chegou a sofrer uma punição de 30 partidas pelo STJD, após torcedores invadirem o campo para bater em jogadores pelo rebaixamento do time em jogo contra o Fluminense. No ano seguinte, a segunda instância do tribunal reduziu para 10 jogos.

Mas, em 2015, a briga em campo e na arquibancada de torcedores de Ceará e Fortaleza já tinha uma certa queda da severidade do tribunal. O Ceará pegou sete jogos, reduzidos para cinco no STJD. E o Fotaleza ficou com sete partidas de pena.

No Brasileiro 2016, Corinthians, Palmeiras e Flamengo tiveram punições parciais nos setores de suas organizadas por brigas progatonizadas por essas. No caso corintiano, em que o conflito com a PM foi maior no Maracanã, foram cinco jogos como mandante, e cinco como visitante. São casos menos graves do que o vascaíno, ressalte-se, porque não envolveram toda a arquibancada, nem houve bombas e ameaça a jogadores.

Questionado pelo blog, o presidente da comissão Lucas Rocha defendeu que a perda de seis mandos para o Vasco é severa, e lembrou que já houve casos piores. “Considerei muito grave e votaria por punição mais severa, mas decidi acompanhar a auditora. A punição máxima seria dez jogos. Punição tem que ser pedagógica”, disse ele. Antes do julgamento de segunda-feira, o Vasco já tinha sido absolvido, em duas instâncias, pela briga no meio da arquibancada no jogo com o Corinthians.

Os advogados do Vasco e seu presidente Eurico Miranda defendem que o clube não teve responsabilidade na confusão, atribuindo a culpa à atuação da Polícia Militar e movimentos de oposição por incitar confusão. “Ela (PM) foi causadora da tragéria. Como joga bomba de gás lagrimogêneo indiscriminadamente na torcida? Um jogou bomba e falou : “Mandamos mais uma no Chiqueirão””, afirmou Eurico, que negou relação com organizadas que causaram briga. “Mentira, mentira. Não tem relação nenhuma.”


Relatórios da CBF minimizam problemas em brigas em São Januário
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Relatórios da CBF sobre jogos em São Januário minimizaram os incidentes de brigas no estádio. Isso ocorreu em jogos anteriores e no clássico com o Flamengo em que foram ignorados alguns episódios. Esses documentos foram produzidos pelo diretor de competições da Ferj (Federação de Futebol do Rio de Janeiro), Marcelo Vianna. Ele afirmou não ter visto problemas de segurança no local antes do sábado e disse ter relatado os incidentes que viu.

Não houve nenhuma restrição da confederação ao clássico com o Flamengo no local escolhido pela diretoria vascaína. Pelo Estatuto do Torcedor, o Vasco é o responsável por garantir a segurança de jogos em que é mandante.

Já a CBF marca os jogos da competição, responde solidariamente por danos ao torcedor e é a responsável pelo plano de segurança da competição. Trata-se de um documento genérico de 16 páginas sem instruções específicas. O plano de ação fica por conta da Ferj, feito em reunião com autoridades de segurança.

Questionado, por meio de assessoria, Marcelo Vianna, da federação, afirmou não ter visto problemas de segurança no estádio antes do clássico: “Não encontrei. Diversas partidas foram realizadas de várias competições em São Januário sem verificação de ocorrências. Compete ao delegado as observações se o clube está cumprindo as normas dos regulamentos das competições e do estatuto do torcedor.”

Pois bem, a CBF institui relatórios de todos os jogos em 2017 para avaliar as condições dos estádios. No caso de São Januário, todos os documentos foram produzidos por Marcelo Vianna. Nesses, ele minimizou brigas anteriores.

Diante do Corinthians, houve tumultos por confronto entre torcedores que protestavam contra o presidente vascaíno, Eurico Miranda, e seus apoiadores, sejam seguranças ou outros torcedores. O confronto foi generalizado como mostram os vídeos. “Após a partida, houve início tumulto na arquibancada onde estava localizada a torcida do clube mandante (curva da arquibancada) que foi rapidamente contornado pela Polícia Militar”, relatou Vianna.

Depois, na partida contra o Avaí, houve um apagão e novos protestos contra Eurico Miranda, seguidos de agressões. Houve tiros de balas de borracha e até a necessidade de divisão no meio da torcida para evitar mais briga.

Mas Vianna atribuiu o problema à política do clube e disse que a PM manteve a ordem: “Durante a paralisação da partida grupos políticos de segmentos contrários protestaram no anel da arquibancada. A Polícia Militar realizou intervenção, mantendo a ordem e organização no interno do estádio. Com o reinício da partida, tudo transcorreu sem incidentes até o encerramento. Não havendo registro de nenhuma anormalidade.”

Pela assessoria, Vianna afirmou ter relatado o que viu e que a CBF recebeu as informações: “Nos jogos citados contra Corinthians e Avaí, ocorreram situações na arquibancada, assinaladas na súmula do jogo e também no relatório. Isso ficou (e está) à disposição das autoridades desportivas e da entidade organizadora do campeonato para avaliação dos fatos.”

O relatório sobre o jogo entre Flamengo e Vasco, também de Vianna, menciona bombas e correria na torcida vascaína, mas, de novo, ignorou alguns dos graves acontecimentos. Ele não cita o fato de jornalistas terem sido ameaçados por torcedores de agressão dentro da cabines invadidas, nem que os jogadores do Flamengo e arbitragem tiveram que sair correndo para deixar o campo sob bombas da torcida do Vasco. Também não mencionou que o gás de pimenta afetou os atletas.

“Após término da partida, na proporção de estádio destinado à torcida mandante.Houve confronto entre torcedores, com intervenção da polícia, diversas bombas entre outros objetos foram atirados para dentro de campo, impossibilitando a saída para o vestiário da equipe de arbitragem e jogadores da equipe visitante, ocasionando intensa correria no anel da arquibancada. Após a intervenção da polícia militar, com a utilização de bombas de efeito moral e gás de pimenta, todos puderam deixar o campo de jogo. após chegada ao vestiário, não foram produzidos fatos, ruídos ou ameaças nas proximidades do vestiário.”

Não foi relatado nenhum problema nas instalações de imprensa do estádio. Quase todos os itens do estádio foram marcados como ok nos documentos.

Após a confusão, a decisão do STJD determinou falha estrutural do estádio: “O Vice-Presidente (Paulo César Salomão Filho) destacou ainda uma falha gritante na infraestrutura do estádio devido ausência de barreira para obstruir a passagem de torcedores ao local destinado aos profissionais de imprensa que impeça o contato entre os mesmos e as cabines de rádio e televisão”, diz a nota do STJD. Jornalistas foram atacados por torcedores dentro da cabine.

Segundo Vianna, não cabe ao delegado verificar falhas estruturas, o que deveria ser feito pela comissão nacional de estádios da CBF.  Sem verificar nenhum problema em São Januário, a CBF aprovou a realização do clássico contra o Flamengo no local.

Após a briga generalizada, bombas e uma morte do lado externo, a CBF impediu torcedores de irem ao estádio nos próximos jogos. Seu presidente Marco Polo Del Nero defendeu à “Folha de S. Paulo” uma punição por dez anos para os torcedores, sem mencionar medida prática da entidade para resolver a questão da violência. Ele está há cinco anos na CBF.

“A responsabilidade é de quem é o mandante do jogo e de quem organiza a competição. Entendo que responde juntamente com o clube. Um torcedor que sofrer prejuízo pode demandar o clube e a CBF”, explicou o advogado Carlos Eduardo Ambiel. “O fato de haver brigas não signitiva que houve omissão. Às vezes pode-se se tomar todas as providências e haver conflito. Isso tem que ser apurado.”

O blog fez perguntas para a confederação sobre os relatórios sobre São Januário, e sobre os planos de segurança do Brasileiro. A CBF informou que “o plano de ação de cada partida é elaborado pela Federação estadual mandante da partida junto com as autoridades de segurança. A Ferj elaborou, como sempre faz, o plano de ação da referida partida.”


Selvageria em São Januário era uma tragédia anunciada e não tem desculpa
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Derrota para o rival confirmada, membros da torcida do Vasco tentaram invadir o campo, se confrontaram com policiais e jogaram bombas no campo. A confusão chegou a ameaçar jogadores que estavam no gramado que tiveram de sair de correndo para o vestiário. Fora do estádio, uma morte. Ao final, Eurico Miranda pede desculpas, mas diz que não significa que São Januário não pode receber clássicos.

Não poderia estar mais equivocado: é até óbvio que o estádio não poderia ter recebido o jogo entre Flamengo e Vasco. Já não deveria ter sido palco do Corinthians e Vasco no final de 2015, mas, por sorte, o nível de confusão naquela ocasião (houve algumas) foi ao menos tolerável. Não desta vez.

A rivalidade entre os dois times é a mais explosiva e São Januário tem condições complicadas de acesso para as torcidas e para controle delas em situações tensas. Havia ainda um histórico recente de confusões no estádio dentro da própria torcida vascaína, com brigas frequentes. O clima entre parte dos torcedores vascaínos já era de revolta com a atual diretoria.

Era um caldeirão preparado para estourar em caso de uma derrota cruzmaltina, algo bem possível diante do desnível técnico entre os dois times. Não dá para aceitar em nenhum lugar do mundo que a derrota do time da casa transforme o estádio em clima de guerra.

O governo do Estado do Rio tem responsabilidade no episódio pela letargia com que lida com a questão do Maracanã. Estivesse o estádio em funcionamento e viável: o clássico possivelmente seria realizado por lá. Na verdade, era o que deveria ser imposto pelas autoridades de segurança.

O pedido de desculpas de Eurico é insuficiente. Não trata das falhas de segurança que proporcionaram uma enorme quantidade de bombas a serem lançadas no campo. A PM tem culpa, mas o clube é responsável legalmente pelo planejamento de segurança no jogo.

Não trata do fato de jogadores, árbitros e jornalistas terem sido expostos à selvageria.  Ao final, foca em uma insinuação de que uma armação política gerou a confusão. Sem nenhuma prova ou indício de que isso seja real. Será que a família do torcedor vascaíno morto aceita esse tipo de explicação?

Eurico, ressalte-se, não é o responsável direto pela briga, mas errou feio ao marcar o jogo em São Januário. A culpa principal é dos vândalos que transformaram uma derrota para o rival em uma mancha para a torcida do Vasco, em uma provável perda de mando de campo e em uma ameaça à campanha vascaína, baseada em jogos em casa. Pior, a confusão provocou uma morte no portão externo. Não há outra solução moral para o STJD além de fechar São Januário por um longo tempo.

Esse não é o único dano para o Vasco. Imagine o impacto das imagens da briga para o torcedor jovem vascaíno que pensava em ir ao estádio apesar dos problemas? Veja a imagem do torcedor carregado pelo colega Pedro Ivo, do UOL, retirado da arquibancada com gás de pimenta nos olhos. Será que essa criança vai querer voltar a São Januário? Não há desculpas que vá fazer ele esquecer o que ocorreu.

 


Decisão do Brasileiro vira jogo de alto risco e preocupação para CBF
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A CBF livrou-se de um problema fruto da sua falta de habilidade e arrumou outro por conta das circunstâncias. O gol do Atlético-MG impediu que a entidade visse o Corinthians campeão nacional do sofá. Em compensação, tornou a decisão do Brasileiro um confronto de alto risco a ser realizado em um estádio complicado.

Com o tento atleticano, há a forte possibilidade de o jogo entre Corinthians e Vasco, no Rio de Janeiro, no dia 21, tornar-se o momento da confirmação da taça. Basta ao alvinegro paulista uma vitória ou mesmo um empate do Galo diante do São Paulo.

A diretoria do Vasco escolheu São Januário como local da partida já que haverá um show do Pearl Jam no Maracanã poucos dias depois. A CBF confirmou o estádio para o jogo nesta segunda-feira.

Vamos lá. O jogo é entre torcidas rivais que já protagonizaram assassinatos entre si, envolve um possível título, uma disputa contra a Série B e um estádio dos mais complicados do Brasil. A diretoria do Vasco tenta aprovar São Januário para cerca de 20 mil. Isso significaria 2 mil corintianos, provavelmente de organizadas, no local para comemorar a taça.

Lembre-se: a última vez que São Januário recebeu uma decisão do Brasileiro foi em 2000, no jogo entre Vasco e São Caetano. O alambrado cedeu por conta do estádio superlotado permitido pela diretoria da vascaína da época. Houve centenas de feridos e a partida foi interrompida ainda no primeiro tempo.

Adivinha quem era o homem-forte vascaíno naquele época? Eurico Miranda, o mesmo que dirige o clube no momento. Foi ele que quis o jogo diante do Corinthians como a volta a São Januário, e obteve permissões da PM.

Se não fosse uma partida de título, já seria complicado. Os acessos de São Januário são feitos em ruas estreitas. Caso você pergunte a qualquer torcedor que costuma a ir a estádios como visitantes – já fiz isso-, ele te dirá que se trata de um dos locais mais perigosos para acompanhar o time. Com o histórico das duas torcidas, o quadro se torna mais dramático. Clássicos cariocas, por exemplo, são vetados pela PM no estádio.

A CBF tem que analisar seriamente as condições de segurança para saber se confirma o jogo para São Januário. Afinal, a própria confederação já tirou outra partida do estádio neste Brasileiro por entender que não havia condições de segurança com ameaça a jogadores e comissão técnica. Agora, o risco se acentua.

Transferir o jogo para o Engenhão poderia ser uma alternativa bem menos arriscada. Não digo que isso tenha que acontecer, mas, para realizar o jogo em São Januário, seria preciso haver certeza e garantias de todos os órgãos de um sistema de segurança eficiente para isolar as torcidas.

É positivo que o Corinthians tenha a chance de conquistar seu praticamente certo título brasileiro no campo. Mas é preciso muita atenção da confederação e da polícia para não transformar uma festa em tragédia.


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