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Entenda o xadrez por trás da 'NBA do futebol' inventada pelo Real Madrid

rodrigomattos

13/12/2019 04h00

Há uma disputa silenciosa pelo controle do poder do futebol de clubes no mundo. De um lado, o Real Madrid e um grupo de times ricos querendo fundar uma espécie de "NBA do futebol" separada do restante do mundo boleiro. Do outro lado, confederações continentais e ligas europeias de elite contrariadas pela possibilidade de uma revolução no cenário atual. No meio, a Fifa exibindo uma posição ambígua com um pé em cada canoa. O Brasil começou a participar das discussões neste final do ano.

Não é nova a ideia do presidente do Real Madrid, Florentino Perez, de criar uma superliga com os principais clubes europeus, como noticiado pelo "New York Times" no início do ano. É uma proposta em gestação nos últimos anos quando os times mais ricos do continente perceberam que suas marcas superaram a própria Copa do Mundo em termos de valor comercial e que poderiam ganhar mais dinheiro com isso.

A questão é que, agora, Perez passou a dar os primeiros passos para sua revolução prevista para depois de 2024, data a qual se estende o atual calendário mundial de futebol. Criou uma associação mundial de clubes, incluindo até times de outros continentes. E já estruturou uma proposta de um campeonato de 20 times reunindo a elite europeia, com apenas uma divisão de 20 equipes abaixo dela. Seriam abandonadas as ligas nacionais.

E a Fifa topou receber a reunião do presidente do Real Madrid em sua sede. Com isso, irritou cartolas da Conmebol, além de ter excluído qualquer clube brasileiro apesar de ter chamado argentinos. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, foi cobrado e teve que dar explicações aos cartolas sul-americanos que ainda não engoliram o fato de serem alijados da discussão inicial.

Mais contrariado ainda estava o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, que chamou a ideia de "insana" e "egoísta". A associação de ligas europeias – incluindo Premier League, La Liga, Bundesliga e Série A- também atacou a proposta, dizendo estar "cansada de ameaças vindas de alguns clubes ricos". Como pano de fundo, dizem que podem excluir os times do sistema futebol, o que iria faze-los perder direitos sobre atletas. Por isso, a importância de um eventual aval da Fifa para referenda-los no sistema.

Diante das insatisfações das confederações, Infantino convocou uma reunião para o dia 21, data da final do Mundial, em Doha, para discutir o assunto. Participarão confederações continentais, a CBF e provavelmente alguns clubes. É uma chance de tentar chegar a um entendimento sobre um plano comum. Na pauta, o futuro Mundial de Clubes 2021, com 24 clubes, e a associação global de times.

Para entender as motivações da disputa, primeiro, está claro que o objetivo dos grandes clubes europeus é mais econômico do que esportivo. Querem criar uma liga exclusiva porque estimam multiplicar ganhos.

Para o desenvolvimento do futebol isso faz sentido? A criação de uma NBA vai concentrar o dinheiro ainda mais no topo da cadeia do futebol, excluindo a participação dos outros clubes do processo. No final da linha, todos os outros servirão como mero produtores de talentos para aqueles poucos mais ricos em um esporte difundido pelo mundo.

Não se está pregando aqui um mundo socialista com divisão igual de recursos, quem leva mais dinheiro ao jogo tem que ter remuneração maior. O futebol é capitalista, conta o mérito, tudo certo. Mas isolar um grupo de clubes do restante do sistema do futebol significa relegar o restante a ser pária. No final da linha, por meio do Mundial, qualquer time do mundo pode, hoje, enfrentar os grandes europeus. Admitamos que com circunstâncias bem desiguais. Mas a possibilidade está lá.

A posição da Fifa deve ser a de proteger o desenvolvimento do futebol. Não está bem claro se é isto que Infantino está fazendo. Ao se aproximar do Real, ele quer manter os grandes clubes dentro do guarda-chuva da Fifa. Como pano de fundo, há o seu projeto de Mundial de Clubes de 24 times para 2021 que pretende transformar em uma espécie de Copa do Mundo.

Parece ser mais um movimento para tirar o brilho da Liga dos Campeões da UEFA do que exatamente um movimento de proteção ao futebol. Infantino vai enfrentar os grandes times se esses insistirem em uma liga separada? De que adianta manter os superclubes europeus no mesmo sistema se eles poderão fazer o que quiserem em um campeonato isolado? Como ficará o futebol de seleções se os clubes tiverem cada vez mais força econômica?

O Brasil vê de longe a discussão. A CBF está inteirada sobre o tema, assim como a Conmebol, e ainda estuda a melhor forma de atuar. E os clubes foram excluídos da mesa de debate, nem têm união suficiente para se posicionar em conjunto. É bom que o país pense sobre o assunto rápido ou vai ter que se conformar por aceitar o prato que for servido.

Como resumo, não dá para negar a força e o mérito do futebol europeu de clubes ao se modernizar antes de todos os outros, entender o capitalismo em volta do futebol e tomar de assalto todos os mercados globais. Mas, como em todo o sistema capitalista, é preciso haver freios a abusos de poder econômico, assim como incentivos ao desenvolvimento de áreas menos desenvolvidas.

E é preciso também que os outros mercados, como o Brasil, entendam esse cenário e reajam. Ou então em dez anos não haverá uma camisa naquela pelada infantil da praça que não seja do Barcelona. Por ironia, esse será o legado do presidente do Real Madrid em território brasileiro.

 

 

Sobre o Autor

Nascido no Rio de Janeiro, em 1977, Rodrigo Mattos estudou jornalismo na UFRJ e Iniciou a carreira na sucursal carioca de “O Estado de S. Paulo” em 1999, já como repórter de Esporte. De lá, foi em 2001 para o diário Lance!, onde atuou como repórter e editor da coluna De Prima. Mudou-se para São Paulo para trabalhar na Folha de S. Paulo, de 2005 a 2012, ano em que se transferiu para o UOL. Juntamente com equipe da Folha, ganhou o Grande Prêmio Esso de Jornalismo 2012 e o Prêmio Embratel de Reportagem Esportiva 2012. Cobriu quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas.

Sobre o Blog

O objetivo desse blog é buscar informações exclusivas sobre clubes de futebol, Copa do Mundo e Olimpíada. Assim, pretende-se traçar um painel para além da história oficial de como é dirigido o esporte no Brasil e no mundo. Também se procurará trazer a esse espaço um olhar peculiar sobre personagens esportivas nacionais.

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